Planeta dos Macacos: A Guerra

Vou começar dando uma voadora: Planeta dos Macacos: A Guerra é o melhor Blockbuster do ano. De longe, e acho pouco provável que apareça um melhor.

 

Matt Reeves tem apenas seis filmes como diretor em seu currículo. Começou como roteirista, seu primeiro curta fez parte de uma coletâneas que virou um filme independente, aí fez uma comediazinha romântica ruim que ninguém viu e acho que aí ele percebeu que sua carreira estava indo para um caminho meio estranho, migrou para a TV, junto com JJ Abrams, seu amigo de infância, sim, aquele JJ Abrams que dirigiu Star Trek e Star Wars era brother de infância do Reeves, com quinze anos de idade os dois foram contratados por ninguém menos que Steven Spielberg pra passar uns filmes em Super 8 para vídeo cassete.

Já pensou, véi, com quinze anos aparece o Spielberg e te dá um trabalho? Mas deixa eu voltar, aí eles foram pra TV e juntos criaram a série Felicity.

Em outro projeto com JJ Abrams Reeves mostrou a que veio: dirigiu o ótimo Cloverfield: Monstro, um dos melhores, senão o melhor filme de monstro gigante que destrói Nova York já feito.

Depois fez a versão americana de Deixe Ela Entrar, um ótimo filme de vampiro sueco. A versão do Reeves é inferior ao original mas não ruim a ponto de ser ignorado e meio sem querer, em 2014, Planeta dos Macacos caiu no colo dele e ele segurou a onda e transformou a franquia em um sucesso de público e crítica.

O cara conseguiu escapar do padrão tasqueira de qualidade dos blockbusters de Hollywood e investiu na profundidade dos personagens, deixou tudo mais emocional, sutil, colocou momentos de silêncio memoráveis em um filme que naturalmente só teria cenas ação.

Pensa que o filme tem gorilas com metralhadoras em cima de cavalos e isso nem é o mais importante.

E agora, a conclusão da trilogia, nas mãos de Reeves, parece natural e suave, e em um ano cheio de grandes filmes vazios, cujas bilheterias parecem perder fôlego, finalmente surge uma luz no fim do túnel com um produto muito raro: um Blockbuster que tem alma.

Quinze anos após o surto da terrível gripe símia a humanidade está próxima do fim e é atacada por um segundo vírus. Grupos de humanos e pequenos exércitos se organizam para eliminar os macacos super inteligentes.

César e seus seguidores se escondem sob uma cachoeira, quando são emboscados pelo Coronel, interpretado por Woody Harrelson, um paramilitar que caça César para vingar os seres humanos e para ter um sopro de vida como ser dominante no Planeta Terra.

A trilogia tem um conteúdo bem profundo para o que poderia ser apenas um Blockbuster com macacos falantes dando tiros. Mas a pegada é diferente desde o começo.

Se lembrarmos, o enredo do segundo filme já pegava um caminho mais emocional quando deixava claro que humanos e macacos nano conseguiriam trabalhar juntos, que nenhum dos lados daria o braço a torcer e aceitaria as diferenças.

E esse terceiro vai por um caminho ainda denso, com o esforço final da humanidade pela sobrevivência, contra um inimigo que está cada vez mais evoluído.

Os seres humanos estão à beira da extinção, este é o momento final, o último suspiro.

É interessante pensar que o cinema, como disse Roger Ebert, é uma máquina de empatia. E aqui nós, humanos, não sentimos empatia pela nossa própria raça.

Planeta dos Macacos: A Guerra faz ainda alusão aos piores aspectos da humanidade, como a escravidão e o holocausto. Os humanos estão despreparados, desesperados, sua existência é ameaçada e estão todos perdidos.

E por outro lado alguns macacos chegam a conclusão de que é melhor trabalhar com os humanos que serem mortos. Pois é, tem macacos traidores, que trocam de lados, e o filme explora bem isso.

Aos macacos é permitido serem complexos, emocionais, sofisticados e até terem redenção. Ninguém, homem ou macaco, deixa de se conectar com público. É possível sentir empatia e vergonha pelos personagens dois dois lados. Parece que todos os personagens são vítimas.

Dunkirk é o mais recente filme sobre um evento real da Segunda Guerra Mundial, e a sobrevivência é, claro, o tema central.

Mas diferente de Dunkirk, Planeta dos Macacos: A Guerra vai além, a simples coexistência das duas raças no planeta Terra é claramente impossível.

Os motivos que movem César ou o Coronel são pessoais, egoístas, autodestrutivos, ambos movidos por vingança. A diferença é que César ainda consegue refletir sobre seu futuro, coisa que o Coronel não tem.

Planeta dos Macacos: A Guerra é um filme muito divertido, emocionante e que você vai assistir feliz com a boca cheia de pipoca.

É um Blockbuster com duas horas e vinte, que tem personagens renderizados em praticamente todas as cenas, mas não é uma experiência plastificada, não parece falso, é a primeira vez que personagens de computação gráfica transmitem emoção de forma tão real e poderosa para o público.

A parte técnica não economizou para entregar personagens bem desenvolvidos. E, vejam só, a maior parte do filme se passa com personagens que não falam, o que exige ainda de que conta uma história para manter o público interessado nela.

Em alguns momentos os macacos se comunicam por sinais, em outros a gente sabe o que eles estão falando apenas pela troca de olhares. O silêncio é uma poderosa ferramenta que completa a emoção, que faz o público se conectar com os personagens e Matt Reeves se mostra um diretor com muita paciência, inteligência e culhões.

Mas esse silêncio dura até a metade do filme. Aí a ação começa e os sons e a trilha sonora substituem o silêncio e o espectador é transportado para um passeio com um ritmo completamente diferente.

Somos jogados para a estrutura dos velhos faroestes e filmes de guerra, e eu me lembrei do ótimo Fugindo do Inferno, épico de guerra dirigido por John Sturges em 1963.

A segunda metade de Planeta dos Macacos: A Guerra é praticamente outro filme, mas tão convincente e bem desenvolvido quanto a primeira metade. A ação é orgânica, elaborada, geográfica e todos os momentos funcionam como uma engrenagem bem azeitada.

Matt Reeves entrega um clímax gratificante, e o filme fecha de maneira grandiosa.

Andy Serkis é o coração da franquia. Não vou dizer que ele leva o filme sozinho nas costas, pois todos os outros personagens tem o devido peso e o todo é bastante equilibrado, mas não tenho dúvidas que se o enredo exigisse um César solitário Andy Serkis carregaria o filme sozinho nas costas com facilidade.

Aliás, César está longe de ser perfeito. É um ser com dúvidas, que luta contra suas emoções, que se perde em vários momentos, mas as nuances em seu rosto computadorizado, criadas pela Weta, transmitem todas essas emoções criadas por Serkis, e o resultado é um daqueles momento em que o cinema sobre um degrau.

Nenhum dos filmes anteriores da franquia ganhou Oscar de Efeitos Especiais, mas dessa vez não vejo concorrentes que possam tirar o Oscar de Planeta dos Macacos: A Guerra.

Não vejo. Neste ano não teve nada melhor, nada que chegasse perto. E pensa que o filme todo teve elementos renderizados, não foram apenas cenas específicas. O filme todo!

Desde o Gollum
que os fanboys pedem para que Andy Serkis seja indicado como ator, mas essa é a primeira vez que eu defendo isso.

A variedade de emoções que injeta em César é absurda, tanto falando quanto em silêncio, ele atinge todos os níveis. O problema é que o trabalho de animação do César também tem que ser levado em conta e isso automaticamente descarta a premiação solo de Serkis.

Woody Harrelson faz sua parte, o Coronel é um humano sem esperanças que tem lá seus motivos para agir como age. Ele não é apenas um louco que quer destruir tudo, um vilão quadradinho de filme de super heróis.

Como combatente ele respeita César e os outros macacos, mas a sua falta de perspectiva de sobrevivência faz com que ele tome atitudes brutais, dignas de um criminoso de guerra.

Um novo personagem é introduzido na trama para servir como uma espécie de alívio cômico. Mas Bad Ape, Macaco Mau é um personagem traumatizado pelas próprias experiências de vida.

O humor serve como disfarce para a tragédia pessoal e isso permite que o público se conecte profundamente com o macaquinho.

É mais um exemplo de como os macacos em computação gráfica são realistas muito atém do esperado, estamos vivendo um momento sem precedentes no universo do cinema.

Eu aposto dé reais que a audiência vá soltar uma ou outra lágrima dentro do cinema, coisa que nenhum outro Blockbuster de 2017 conseguiu fazer. Se considerarmos que até chegarem os créditos finais você estará torcendo pela extinção da humanidade esse deve ser um dos filmes mais sombrios dos últimos tempos.

Planeta dos Macacos: A Guerra é envolvente, gratificante, emocionalmente rico e capaz de atingir o coração até do espectador mais frio, como é o meu caso. E eu fico puto da vida ao perceber que é possível fazer blockbusters, filmes de ação com qualidade e com um nível acima da média, e mesmo assim a gente continua a assistir bobagens vazias como Velozes e Furioso e Transformers.

Matt Reeves é um diretor que segura as rédeas do filme, equilibra o ritmo, investe nos personagens e no crescimento deles no meio da trama, que em nenhum momento parece ser tocada em piloto automático, com cenas pra encher linguiça e dar as duas horas de filme.

Eu não tou dizendo aqui que Planeta dos Macacos: A Guerra tem a profundidade de um filme do irmãos Coen ou do Paul Thomas Anderson ou do Terrence Malick. Longe disso.

Mas eu tou dizendo que pensando que é um filme comercial, produzido para o versão americano, daqueles que existem apenas para tomar o seu rico dinheirinho, o que você verá na tela vai te surpreender.

É um filme cuidadoso, reflexivo e contemplativo que não descuida da ação e da ficção. Lembre-se: eu tou falando sobre um filme que tem um gorila segurando duas metralhadoras em cima de um cavalo.

Guerra é o melhor filme da trilogia, uma trilogia que há pouco tempo eu afirmei, num podcast que eu participei, que seria esquecível. Que o Planeta dos Macacos atual não teve capacidade de gerar no público a sensação de mitologia criada pelo original, de 1968, que não teve capacidade para criar elementos memoráveis o suficiente para ficar na memória das pessoas.

Talvez realmente essa nova trilogia não tenha produzido uma mística sobre os macacos no inconsciente coletivo, mas Planeta dos Macacos: A Guerra definitivamente vai ficar marcado como o ponto em que a computação gráfica atingiu aquele nível aparentemente impossível de não conseguimos mais diferenciar o que é digital do que é real, ou mesmo do digital passar emoções mais fortes que o real.

A história segura o público, que torce pelos macacos, que são dignos da sua atenção. Planeta dos Macacos: A Guerra é a prova que um Blockbuster é capaz de oferecer um produto com conteúdo, mais que apenas um roteiro para vender bonequinhos, e isso definitivamente é marcante.

Em um ano com tantos filmes vazios, Planeta dos Macacos: A Guerra é o novo. É o diferente. E eu torço demais para que faça uma bilheteria enorme, para quem sabe assim em breve vermos outra blockbusters com boas histórias. Vamos torcer.

Ah, e caiu no colo do Matt Reeves o novo filme solo do Batman. Uma ótima notícia.

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