Para que servem os super-heróis?

As histórias de super-heróis podem parecer triviais e previsíveis aos olhos de quem só busca um entretenimento de qualidade. Mas se prestarmos mais atenção, é possível que encontremos doses cavalares de problemas filosóficos bastante pertinentes, além de profundas críticas ao modo como nos relacionamos.

 

Pense bem. Em um universo onde eventualmente – e de inúmeras maneiras possíveis – alguém recebe dons extraordinários, como voar, invulnerabilidade, fator de cura e outros ainda mais miraculosos, por que, dentre tantas possibilidades úteis, se prestar ao trabalho de vestir uma fantasia extravagante e combater o crime?

Claro que nos quadrinhos os autores são obrigados a queimar neurônios e criar as mais diferentes justificativas. Alguns são tão bons nisso, que o leitor não tem dúvidas de que o melhor a se fazer quando se tem superforça é bater em criminosos.

Há duas formas clássicas de justificar um super-herói. A primeira é atribuir ao personagem graves complexos de culpa, como Peter Parker que deixou escapar o assassino de seu tio, ou Superman que, por ter perdido seu Planeta Natal, procura evitar que o mesmo aconteça com a Terra. E assim é com Batman, Demolidor e por aí vai… Outra justificativa clássica são os supervilões que, muitas vezes tão poderosos quantos os heróis, são a desculpa perfeita para qualquer um vestir uma capa. Afinal, mesmo a bem treinada S.W.A.T teria problemas em lidar com Thanos, Apocalypse e tantos outros monstros.

Ok. Crises interplanetárias à parte, voltemos à pergunta: Para que serve o super-herói dentro do contexto em que foi criado?

Seja nos quadrinhos ou no mundo real, um super-herói não faria sentido se não houvesse crime. Isso quer dizer que, se cada cidadão e governante fizesse a sua parte para construir um mundo melhor, os heróis poderiam deixar a violência de lado e se dedicar a trabalhos mais edificantes. Já pensou se Barry Allen, o Flash, usasse toda sua genialidade e sua relação com a força de aceleração para solucionar o problema da escassez energética no mundo?

Mas há dois problemas aí:

  • Somos 7 bilhões de pessoas com ideias bastante diferentes do que seria esse mundo melhor, e com pouquíssima disposição para sacrificar nossos valores e tradições em prol de um bem comum.
  • Temos um péssimo histórico em lidar com o diferente. Somos belicosos e agressivos quando nos defrontamos com o inexplicável. E não há nada mais inexplicável que uma garota capaz de atravessar paredes ou um homem que pode se esticar por dez, vinte metros.

Não que sejamos incapazes de viver em harmonia, mas ainda somos imperfeitos na arte da compaixão. E por compaixão, entenda a habilidade de se importar com pessoas que não conhecemos ou que sofrem do que não sofremos. Um super-herói representa o exato oposto dessa ideia.

Homem-Aranha faz o que faz não só em detrimento de sua própria segurança física, mas também da sua qualidade de vida. Quantas vezes já o vimos abrir mão de seu amor por Mary Jane ou de uma boa oportunidade de emprego, para impedir um assalto a banco e ajudar a quem precisa?

Não há muitas dúvidas sobre para que serve um super-herói nos quadrinhos, mas aqui no mundo real a figura de alguém com tamanho desprendimento, a ponto de sacrificar a própria pele para salvar o dia, nos inspira lembrar que “a vida espera de nós nossas melhores contribuições”, mesmo – e principalmente – diante das mais inesperadas crises.

Ainda que às vezes de maneira questionável, como Batman e sua galeria de vilões, ou notoriamente equivocada, como o Justiceiro, os super-heróis são o ápice da compreensão juvenil sobre a bondade e o amor ao próximo que, fora da ficção, é o estandarte de quase todas as culturas e formas de fé.

Por trás do collant apertado e frases de efeito, repousa a mensagem de que um mundo melhor é possível, se tivermos fibra moral e muita força de vontade para superar a nós mesmos.

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