Mulher Maravilha – Um bom filme que poderia ser bem melhor

Mulher Maravilha é o filme de super heroína que o mundo precisava, e entrega justamente o que o mundo aparentemente quer ver. Mas poderia entregar muito mais.

 

Depois dos terríveis Mulher-Gato (Catwoman, 2004) e Elektra (2005), e de um blockbuster, Caça-Fantasmas (Ghostbusters, 2016), que aparentemente deveria entregar uma visão feminina do mundo, Mulher Maravilha, o único desses filmes dirigido por uma mulher, Patty Jenkins, funciona muito melhor que os antecessores.

É sempre bom lembrar que o cinema é dominado pelos homens nos papéis de heróis, raramente temos uma heroína forte que dependa pouco do seu par romântico, é assim que Hollywood funciona pois é essa fórmula que vende ingressos, então os produtores tem um medo danado de tentar algo diferente.

E mesmo quando tendem a fazer algo diferente, como em Mad Max: Estrada da Fúria, que é um filme mais da Imperator Furiosa (Charlize Theron) que do Max (Tom Hardy), é o nome dele que está em destaque no título.

Então é bom lembrar que temos aqui a maior super heroína de todos os tempos, uma personagem que carrega o peso de ter representado gerações de mulheres e que não tem nenhuma outra concorrente à altura que ameace sua posição no universo da cultura pop.

Atenção: Contêm alguns Spoilers:

Ou seja, se o filme da Mulher Maravilha falhasse as chances de termos outros com mulheres protagonistas diminuiriam consideravelmente e a Marvel começaria a se preocupar com sua Capitã Marvel. Mas o filme não falha e garante caminho para produções futuras, caminho que ainda precisa ser validado nas bilheterias, o que eu acredito que será, de maneira tranquila e segura.

Mulher Maravilha é um bom filme, mas não me passou a mesma empolgação para revê-lo imediatamente como a que eu senti em Batman V Superman ou Mad Max: Estrada da Fúria. Vou rever o filme, isso é certo, até porque eu já estou com o ingresso comprado.

O filme todo é um flashback de duas horas em torno daquela foto da Mulher Maravilha que o Batman descobre em Batman v Superman. Começa com um belo prólogo, em Temiscira, que conta a infância de Diana entre guerreiras poderosas e mostra uma paisagem lindíssima, com cara de papel de parede de computador, e tem momentos bem interessantes, como as cenas de treinamento ou aquele em que a mãe de Diana conta a ela, ainda criança, a história de Zeus contra Ares. Um dos momentos mais bonitos do filme.

Ah, as Amazonas…

Eu assistiria a um filme apenas com as Amazonas. Poderiam passar duas horas com elas tricotando em hero shots que eu assistiria com o maior prazer, num looping infinito.

As Amazonas treinando em cãmera lenta, ou numa batalha aos estilo 300 (2006), todos os momentos entregam um visual absurdo, incrível. A rainha Hipólita ao descer de um cavalo no meio de uma luta é uma das cenas mais épicas do filme, que coisa linda, – Meu deos, que mulher! E olha que a cena não dura mais que três segundos.

Mas Diana precisa abandonar a Ilha para que a trama continue – por mim eu continuaria na ilha, mas a jornada do herói é isso, nossa heroína precisa abandonar a segurança do lar e conquistar o mundo.

Mas eu repito, continuaria na ilha mais uma meia hora de filme, se pudesse.

E nesse ponto entramos na velha fórmula da personagem linda e inocente em um mundo cheio de novidades, e os olhinhos da Diana brilham a cada momento em que ela descobre algo novo, tal qual Daryl Hannah, a linda sereia de Splash, Uma Sereia em Minha Vida (Splash, 1984). E a cena em que a Diana carrega sua espada em roupas civis me lembrou demais Crocodilo Dundee (Crocodille Dundee, 1986), quando ele decide mostrar sua faca para um cara que tenta assaltá-lo em Nova York.

Esse é o problema de Mulher Maravilha. A história tá longe de ser inovadora. Pelo contrário, a estrutura é a mesma de sempre, com personagens não muito diferentes do que vemos em todos os filmes, como o grupo que Steve Trevor reúne para ajudá-los na missão: o mesmo grupinho de sempre, outsiders que se completam e entregam momentos engraçadinhos e emocionantes quando precisamos deles.

Um ponto interessante é dizer que, apesar de flertar com o humor, o filme não cai na armadilha de usá-lo como base para segurar o interesse do espectador. Tem piadinhas, tem momentos, mas o tom é sério, respeita os objetivos da personagem principal e não faz pouco caso deles.

Voltando para a história, entramos num emaranhado que nos remete a diversos filmes recentes. Eu me lembrei de Capitão América: O Primeiro Vingador (Captain America: The First Avenger, 2011) nas cenas de luta – apesar que a cena em que Diana enfrenta os alemães é bem mais tensa que as de Capitão América, me lembrei bastante de Cavalo de Guerra (War Horse, 2011) e até mesmo de Rogue One (2016), em alguns momentos.

Ah, e a cena final é muito, mas muito parecida com a cena final de Batman v Superman: A Origem da Justiça (Batman v Superman: Dawn of Justice, 2016). O clima é exatamente o mesmo, sem tirar nem por.

E é claro que eu preciso falar dos hero shots. Hero shot são aquelas tomadas que destacam o herói na tela em uma pose dramática, geralmente de baixo para cima, que deixa o herói pomposo, maior, mais poderoso, enquanto a cãmera gira em torno dele, bem típico dos filmes do Michael Bay ou do Zack Snyder, com cãmera lenta e luz ao fundo enquanto toca uma música engrandecedora.

Basta a Mulher Maravilha aparecer no filme e pronto: hero shot. Dezenas. Um depois do outro. Chega a ser exagerado. Mas não deixa de funcionar e de ser divertido, pois a Gal Gadot é a mulher mais adorável do cinema deste século e, apesar de ser uma atriz limitada, é absurdamente linda.

Eu me apaixonava a cada vez que ela recebia um close, ou ela fechava os olhinhos como quem está muito prestando atenção no que o outro ator diz, ou quando ela sorria, ou quando ela respirava. Que visão dos deuses.

Pronto, acabei de arranjar um motivo para rever o filme.

No geral Mulher Maravilha é bom filme, conta bem a origem da personagem, diverte e vale o preço do ingresso. Em 2D, não em 3D.

Mas isso não significa que não tenha problemas: A fotografia é boa, mas a edição tem uns cortes bruscos e malfeitos totalmente perceptíveis, a gente sabe que ficou faltando alguma coisa; a Computação Gráfica não é das melhores e em alguns momentos nossos heróis parecem personagens de vídeo game.

A trilha sonora que peca por usar muito pouco o ótimo e marcante tema da personagem; o vilão é bem marromenos, carisma quase zero; e o final é tão bobinho, mas tão bobinho que nem faz muito sentido, só faltou os aliados darem as mãos com os alemães e todo mundo sair saltitando em um campo de girassóis com o solzinho dos Teletubbies ao fundo…

Mulher Maravilha: Um simbolismo e um SPOILER:

O filme tem vários detalhes sutis sobre a masculinidade jogadas para o público, para colocar a personagem em uma posição superior ao seu par, mas uma em específico deverá deixar as femininstas com os cabelos em pé:

Não bastasse ser um filme com uma quantidade alta de cenas românticas – ainda que bem equilibradas com cenas de ação, não bastasse o final em que a Mulher Maravilha supera um momento de sofrimento por causa do homem que ela ama, a história central tem um elemento que simboliza o órgão genital masculino no emocional da personagem.

Logo depois que a Diana salva o Steve Trevor, na cena inicial, ele passa por uma sessão no Laço da Verdade e depois vai relaxar, tomar um banho de sais, essas coisas que prisioneiros fazem.

Ele se levanta, nu, da banheira em que está e, nesse momento, a Diana entra e pergunta se todos os homens são assim. Steve responde, meio sem graça, mas sem esconder muita coisa, que ele está acima da média, e Diana pergunta o que é essa coisinha.

No caso a coisinha não era o pênis de Steve, mas sim um relógio de pulso, que Steve diz ser algo que marca o tempo, que avisa quando é preciso acordar, comer, essas coisas.

Diana responde: não acredito que você deixa uma coisa desse tamanho controlar a sua vida.

A cena tem dois segundos a mais inseridos propositalmente para manipular o espectador e obrigá-lo a pensar que o que Steve é controlado por seu pênis, como a maioria dos homens.

Ok, até ai é uma piada de duplo sentido, uma brincadeira comportamental, tudo bem. Mas na cena final, quando a Diana olha a foto dela com ele (a mesma de Batman v Superman) ela pega o relógio e passa carinhosamente o dedo nele, numa nítida referência ao membro sexual do personagem.

Eu não sou daqueles que entra em discussão sociológica ou comportamental na internet, odeio os SJW, acredito que o politicamente correto atrapalha muito mais que ajuda, mas no caso da Mulher Maravilha eu esperava mais. Esperava uma revolução ao estilo Furiosa, esperava uma heroína que não dependesse de homens, esperava que os roteiristas fossem inteligentes o suficientes para inventar uma nova fórmula, romper com os padrões que a sociedade tanto anseia, e eu cheguei a acreditar que receberia algo novo.

Havia chances de ser um daqueles momentos que mudam o cinema para sempre, mas foi mais uma oportunidade perdida. Entretanto tudo se explica quando a gente descobre que o roteiro foi escrito por homens e não por mulheres…

Vamos falar de coisa boa?

O site Nerd Rabugento é independente e não depende de patrocinadores para existir. E toda contribuição que você fizer será muito bem vinda, seja com o valor que for. Com apenas um real você já ajuda e mantêm o site independente.

A independência do conteúdo do Nerd Rabugento depende de você. O seu apoio pode ser tanto mensal quanto feito apenas uma vez, com qualquer valor. Escolha um dos links abaixo e faça o site Nerd Rabugento crescer ainda mais rápido!

QUERO APOIAR ➜     QUERO CONTRIBUIR ➜