Mãe! Provocador, caótico e delicioso de assistir

Aqui está a crítica de Mãe!, novo filme de Darren Aronofsky, com Jennifer Lawrence e Javier Barden, e que causa um certo desconforto nos espectadores que assistem ao filme.

 

Não tem spoiler.

Eu tento muito não fazer spoilers dos filmes, não quero estragar a experiência de ninguém, e quando eu faço um spoiler eu aviso antes. Logo, não tem spoiler neste vídeo.

Os rabugentos geralmente me pedem pra fazer reação de trailer, uma coisa que a internet adora, mas eu acho que não farei mais. Primeiro porque geralmente os estúdios reclamam por usar os trailers para ilustrar e é chato nano usar, e segundo porque minha política atual é saber o mínimo possível de um filme antes de ir ao cinema para assistí-lo

Eu acredito que para um crítico de cinema quanto menos ele souber sobre uma obra antes de assistí-la mais natural será a sua resposta na hora de escrever uma crítica.

E eu não vi praticamente nada sobre Mãe!, o filme guardado a sete chaves de Darren Arronofsky, com Jennifer Lawrence e Javier Barden. Mas depois de ter assistido eu descobri que a divulgação dele fez uma jogada desonesta com o público: vendeu Mãe! Como se fosse um filme de terror.

Não é. Teve gente que me veio perguntar se realmente se parecia com O Bebê de Rosemary, e a resposta é não. A única coisa que tem a ver com O Bebê de Rosemary é o filme ter um bebê, mas até aí Querida, Encolhi o Bebê também tinha.

Mãe! É um filme de arte, não um filme pipoca. É pessoal, furioso, profundo, polêmico, desafiador, uma obra visualmente audaciosa e fora do padrão comercial de Hollywood. Por isso eu não estou surpreso com a resposta do público lá nas gringas, que tem odiado o filme, e nem vou ficar surpreso se o público brasileiro tiver exatamente a mesma reação.

O que vai ter de gente indo ao cinema na espera de um filme de terror não tá no gibi. Então esteja avisado, não caia nessa.

Mãe! não é um filme de terror.

Aronofsky é um daqueles cineastas que fazem obras com um impacto mais forte que o normal e com mensagens mais difíceis de serem absorvidas pelo público, como no caso de Requiém para um Sonho ou A Fonte da Vida.

E Mãe! continua dentro desse padrão. É um filme desfiador, que demanda total atenção de quem assiste e que permite toda uma desconstrução depois de assistido. Tá longe de ser uma experiência passiva, o espectador é constantemente desafiado a pensar e refletir.

Eu assisti ao filme faz três dias e continuo a pensar nele, em busca dos detalhes que eu perdi, descobrindo a importância dos personagens e refletindo sobre os símbolos espalhados pela tela.

Odeio parecer pedante, mas obviamente Mãe! não foi feito para o público médio. Mais que sentar a bunda no cinema ele exige uma entrega e uma aceitação.

Se você estiver disposto a isso, eu te garanto que você terá uma tremenda experiência pessoal e talvez receba um dos mais impactantes momentos dentro de um cinema.

Aliás, importante, se você estiver disposto a ter essa experiência única, veja no cinema. Não deixe pra ver em casa, com distrações e telas pequenas. A entrega precisa ser um pouco mais profunda.

Mãe! é sobre um casal, Jennifer Lawrence e Javier Barden que vivem em uma casa no campo. Ele é um escritor que passa por um bloqueio criativo enquanto ela reforma a casa, que sofreu um incêndio no passado, na esperança de construir uma família no futuro.

Eis que um estranho, Ed Harris, surge e Barden o convida para ficar. Um tempo depois surge a esposa do estranho, a ótima Michelle Pfeiffer, e ambos tomam o espaço como se fosse deles, como visitantes folgados, e isso incomoda a dona da casa e parece balançar as bases do seu casamento.

Aliás, pra você ver Mãe! É foda e tem um milhão de simbolismos, eu estou desconstruindo ainda mais o filme na minha cabeça enquanto me lembro dele.

E mais pessoas continuam a chegar na casa, o desconforto aumenta e a personagem de Jennifer Lawrence fica cada vez mais agitada, desesperada, tensa.

Tenha em mente que Mãe! é um filme cem por cento metáfora. Nada que você verá tem a intenção literal de ser o que parece. Nada. Ao aceitar isso a sua experiência será melhor.

Eu mesmo só captei a mensagem depois de uma meia hora de filme, e quando eu percebi o que tava rolando ficou tudo muito mais interessante. As peças passaram a se encaixar e o quebra cabeças começou a se montar.

Eu gostaria de fazer alguns spoilers para deixar a tal alegoria mais clara na cabeça de vocês, mas a experiência da descoberta é tão poderosa quanto o todo, tanto que eu pretendo rever Mãe! assim que estrear apenas para analisar todos os mínimos detalhes e pensar em tudo o que eu não consegui decodificar.

No começo eu me senti incomodado. O ritmo inicial é lento, tudo parece meio sem rumo e perdido. Que porra de filme eu estava vendo? Era um filme de terror? Tem fantasmas? Monstros? Aquilo era a ilha de Lost?

Que raios de filme pretensioso era aquele?

Aliás, mesmo depois de ter captado a mensagem eu continuo a achar que Mãe! é pretensioso, sim. São suas horas dedicadas a uma grande metáfora e é preciso ser pretensioso entregar isso.

Mãe! não tem nada gratuito, é uma declaração artística legítima e defende seus motivos com ferocidade. E há tantas informações que o espectador é convidado a decodificar a mensagem enquanto presta atenção no que vem depois. E com certeza isso vai cansar quem não for ao cinema preparado.

Nesse reino da metáfora um diretor precisa ter total controle e ser efetivo no que faz, e Aronofsky é um dos melhores diretores vivos para entregar uma visão específica de uma história. Cisne Negro e Requiém para um Sonho são exemplos de como ele consegue passar a aflição dos personagens num redemoinho de sensações que impactam o espectador sem se perder em divagações.

E ele usa a câmera em Mãe! para fazer com que a personagem da Jennifer Lawrence carregue o espectador pelas mãos, quase que exclusivamente na sua órbita. Quando ela sai de um quarto, vamos com ela. Nos cantos, tentamos escutar conversas junto com a personagem, que carrega todo o sofrimento e o público com ela. Enquanto surgem as pessoas na casa experimentamos toda a sua confusão, irritação, nervosismo, e essas emoções seguem num crescendo contante até o ato final.

E justamente no ato final Aronofsky mostra o seu poder de desencadear o caos e a tormenta. É um momento de confusão mental que parecem formar um pesadelo, cada vez mais pesado e crítico, um completo pandemônio.

O compromisso de Aronofsky para entregar sua visão é completo. Ele não deixa nada para trás. Nisso a indignação e a ofensa do público já devem ter sido devidamente desencadeadas. A obra de arte é metafórica, mas permite um sem número de interpretações pessoais, algumas delas absurdamente óbvias, outras nem tanto, mas eu vou deixar que você mesmo capture todos os simbolismos e tire sua conclusão.

Não vou me aprofundar mais sobre o enredo, eu me comprometi a não estragar a sua experiência e vou cumprir com meu compromisso.

Sendo desonesto com o próprio Aronofsky que é um mestre em sua própria linguagem, para localizar o público sobre o que esperar eu diria que Mae! poderia muito bem ter sido feito por um gênio como Andrei Tarkovsky ou por um maluco como Lars von Trier. As duas respostas poderiam estar certas.

Mãe! é uma daquelas obras que tendem a polemizar e enfurecer, mais até que atrair o público. Mas é nítido que essa é a abordagem de Aronofsky desde o início. Seu trabalho é profundo e corajoso, não fica boiando na superfície inócuo, e é convidativo, chama o espectador para participar. O cinema deveria fazer isso sempre, trazer o espectador, fazê-lo pensar e mergulhar na história e permitir que ele leve o filme pra casa.

Aronofsky não limita a alegoria e permite que utilizemos de suas emoções, experiências e dos símbolos que aprendemos a carregar durante toda a vida para decodificar a mensagem. E isso exige conexão.

Se você não se conectar com a metáfora principal e seus elementos críticos talvez você se entedie e fique incomodado, da maneira errada, o que é no caso é irônico. Mas eu acho difícil não se conectar, seja de maneira positiva ou negativa, o filme vai te causar uma reação. Seja pela perspectiva cósmica ou pelo sofrimento e angústia da personagem de Jennifer Lawrence.

Eu acho praticamente impossível sair do cinema sem nenhuma reação.

A crítica apresentada por Aronofsky é selvagem, sombria, necessária, e condena o comportamento humano. O ser humano é o principal alvo dele, e ele acerta todos os alvos. É uma obra que permite e inspira o debate, a discussão, a conversa, a sua mensagem tem força para atingir um grande número de pessoas e cada um deles de uma maneira diferente. Só não vai atingir quem não assistir.

Mãe! é sobre comportamento, sobre a vida, sobre a humanidade, como somos famintos para devorar nosso mundo, como não nos preocupamos com nada, como nos relacionamos, como somos egoístas e mal agradecidos.

Não é sobre palhaços assustadores. É sobre como nos tratamos e como tratamos o planeta. E pode nos enganar tão facilmente quanto nos deixar excitados.

É provocador, um sopro de vida, estimulante, incômodo, delicioso de assistir e que exige entrega e um tempo para digestão.

Não é todo mundo que vai gostar de Mãe!, vai ter gente reclamando que não entendeu, vai ter gente reclamando por outros motivos, vai ter gente reclamando por algumas cenas serem lentas demais, outros reclamando por terem cenas pesadas demais, mas não tem como ignorar a mensagem.

Mãe! é o melhor filme do ano, até agora.

E o enredo de Mãe!?

Tenho certeza que vai ter gente reclamando que eu falei pouco sobre a história do filme e que eu enrolei muito com ilustrações e contextos, mas eu não queria estragar sua experiência. Mãe! é o melhor filme deste ano.

Ok, provavelmente é a empolgação falando, mas eu acredito mesmo que nenhum outro filme vai tirar o Oscar de Mãe!, e nenhuma atriz vai carregar tanto um filme quanto Jennifer Lawrence, logo ninguém vai tirar o Oscar dela.

Eu já disse isso e repito: Mãe! é uma daquelas experiências que você precisa passar no cinema. Por favor, nem pensem em ver em casa, em baixar, em ver na porra da tela de um celular. Você vai tirar todo o impacto da obra de arte, você vai fazer errado. Não seja esse cara.

E outro favor, se você gosta de cinema, da arte cinema, pare um pouco com os filmes de super heróis e tente assistir a uns filmes do Andrei Tarkovsky, se permita ter experiências diferente, profundas. E não tem desculpa, alguns dos filmes dele estão disponíveis até no Youtube!

Claro que existe a chance de você odiar a obra dele e xingar o Rabugento depois, ainda mais que não é cinema normal, padrãozinho Hollywood, três atos, um herói, um diálogo simples e no final vai todo mundo feliz pra casa.

E justamente por isso mesmo é que merece ser visto. E veja também os filmes anteriores do Aronofsky. Tirando Noé, que é bom até a metade e depois vira uma merda, todos os outros filmes do cara merecem um pouco da sua atenção.

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