Liga da Justiça, o filme mais juvenil da DC Comics

Depois de passar por psicólogos e analistas para deixar de sofrer com as críticas negativas de Batman V Superman, a Warner Bros. decidiu dar o braço a torcer e mudar o máximo possível do conceito do seu universo cinematográfico no primeiro filme da Liga da Justiça.

 

Para isso ela contratou ninguém menos que Joss Whedon, um dos caras que deu a cara do badalado universo Marvel no cinema, para alterar o estilo Zack Snyder, tremendamente criticado. Talvez eles até tivessem pensado em chamar Jon Favreau, mas o diretor do primeiro Homem de Ferro tem um contrato longo e milionário com a Disney, e era Whedon quem estava disponível.

Zack Snyder, por problemas pessoais – sua filha cometeu suicídio, abandonou o projeto Liga da Justiça e foi passar mais tempo próximo da família. Não que eu esteja sugerindo que os executivos da Warner ficaram felizes com a desgraça alheia, mas estamos falando de empresas, dinheiro e milhões, até bilhões de dólares envolvidos. A saída de Snyder pode ter sido providencial e de repente a desgraça de um homem se tornou a solução de outros.

E assim, depois de meses de refilmagens e edições e cortes e montagens e mudanças no roteiro e diálogos, Liga da Justiça se tornou um filme mais leve e tecnicamente mais aceitável para o público. Até filtro escuro do Snyder, que está presente, deve ser substituído por cores mais claras com o tempo.

O enredo de Liga da Justiça:

A história começa no ponto em que Batman V Superman terminou, dentro da amarração quase perfeita definida por Snyder, com o mundo em luto e caos depois da morte do Superman e com Batman obcecado em descobrir sobre a tal invasão alienígena e montar uma equipe poderosa o suficiente para salvar o mundo.

A Mulher Maravilha está ao seu lado, e juntam-se a eles o Flash, Ciborgue e Aquaman, e o time é montado para enfrentar o Lobo da Estepe, um ser ultrapoderoso e quase invencível que surgiu do Quarto Mundo com planos para dominar o planeta Terra, agora sem a proteção do Super.

E é isso. Esse é o enredo do primeiro filme da Liga da Justiça, que deixa o final aberto para as continuações.

Mas Liga da Justiça é bom?

A sensação que eu tive foi a que a história original foi picotada pelo Whedon para deixar o filme mais dinâmico e não se perder nas cenas infinitas de câmera lenta do Snyder, e isso criou uma sensação de urgência na história. Tudo acontece muito rápido, um exemplo fácil de ser mostrado sem fazer spoiler é na cena em que o Batman vai se encontrar com o Aquaman.

Era aquela cena cliché com um conflito tenso entre os personagens, aquela coisa dos quadrinhos quando dois heróis se encontram e saem na porrada para depois se unirem mas não, no filme a cena é muito rápida e tudo se resolve de maneira simples e até vazia. Esse é um dos momentos que eu tenho certeza que entrou na tesoura do Whedon.

Os personagens de Liga da Justiça:

Quanto aos personagens, o Batman não está tão psicótico quanto no filme anterior, aqui ele triste, desanimado, ó vida, ó céus. Durante o filme todo eu pensei que o Batman precisa URGENTE de um filme solo.

A Mulher Maravilha continua carismática e continua a roubar as cenas, ela é uma das melhores coisas do filme, com suas pequenas e suaves expressões que dizem sempre muito. Eu acho que desde o Wolverine do Hugh Jackman nenhum outro ator ou atriz havia encarnado tão bem um personagem dos quadrinhos como Gal Gadot e a sua Mulher Maravilha.

Aí alguém vai dizer que o Robert Downey Jr. fez um Tony Stark/Homem de Ferro perfeito e carismático, e eu digo que fez sim. Mas ele continua a ser o Robert Downey Jr. Assim como o Ryan Reynolds também fez um Deadpool perfeito, mas ele continua a ser o Ryan Reynolds. A Gal Gadot não. Sua Mulher Maravilha tem vida própria, é carismática, é única.

O Aquaman do Jason Momoa é meio Viking, eu penso que o personagem é tudo o que o Thor deveria ter sido desde o começo, se não estivesse em um filme para crianças. Mas também há um certo exagero, ele passa de Viking a cowboy com alguns gritos de IHÁ! no meio das lutas, e talvez um pouco mais de tempo na tela fizesse bem ao personagem.

O Cyborg é o mais fraco personagem do grupo. Ele só serve para se conectar com a internet e equipamentos eletrônico, que nem o R2D2, e reclamar da vida. Prestem atenção. Tudo o que ele faz no filme é se conectar com as coisas.

Me perguntaram se o Flash do filme é melhor que o Flash da série. Gente, não dá nem pra comparar. O da série é absurdamente tosco. No filme o Flash é o alívio cômico do grupo, todo mundo sabia disso desde o começo, e o Ezra Miller tá inspirado, capaz de se expressar apenas com os olhos.

É outro que precisava de mais destaque, pra gente curtir mais o personagem. De uma maneira geral acho que todos precisavam de mais tempo de tela, com arcos um pouco mais independentes.

E o Lobo da Estepe é um bom vilão. É o típico vilão de quadrinhos, vilão da Marvel que quer dominar o mundo, que some e reaparece só pra fazer a história andar. Foi feito inteiro em computação gráfica, o que não incomoda, apesar de parecer personagem de vídeo game, mas o ator Ciarán Hinds consegue entregar sem perder o feeling da interpretação.

Andy Serkis ficaria orgulhoso.

Ah, tem umas coisas muito loucas no meio do filme.

Quando a Mulher Maravilha narra a história das caixas-mãe, de como enfrentaram o Lobo da Estepe no passado, a narrativa e o enquadramento foram copiados na cara dura da abertura de Senhor dos Anéis, sem tirar nem por.

E tem uma piada tirada diretamente de um artista da internet chamado Kerry Callen, que zoa a Liga da Justiça numa série chamada Super Antics, que os Joss Whedon copiou na cara dura. Vou colocar aqui:

Falando em piadas, tinha gente tacando o terror dizendo que o Liga da Justiça tava engraçado demais, mas não está. Tem umas piadas além da conta em momentos desnecessários, que se a gente pensar bem é mais vergonha alheia que humor, mesmo, mas tenho certeza que o público vai comprar sem pestanejar. Eu adoraria fazer spoilers aqui e reclamar disso tudo, mas quem sabe eu faça isso em outro texto.

Já as cenas de ação são boas, ainda não tem porrada fora, mas os caras se preocuparam em não destruir tudo como nos filmes anteriores. Não tem caminhão tanque cheio de gasolina explodindo dentro de um restaurante ou prédios desmoronando no centro de uma metrópole. E as lutas, tal qual episódios dos Power Rangers, são levadas para a pedreira, aqui no caso uma cidade abandonada no outro lado do mundo, para evitar casualidades humanas.

Tem uma cabeçada que a Mulher Maravilha recebe que doeu em mim. Será que sem o Snyder a DC passará a ter porrada fofa?

E é por isso tudo que Liga da Justiça se transformou no filme mais juvenil da DC, mais juvenil até que Esquadrão Suicida. Longe de mim comparar, Liga da Justiça ainda é absurdamente melhor que Esquadrão Suicida, não me entendam mal, mas foi infantilizado para ficar mais consumível para o grande público, incluindo os críticos e os fanboys com preguiça de pensar.

E temos agora duas cenas pós créditos, uma mais divertidinha, com cara de Joss Whedon, inspirada em uma história em quadrinhos famosa e outra mais com cara de Zack Snyder, que é a mais importante e faz a chamada para os próximos filmes.

A Warner passa por um momento em que precisa desesperadamente agradar os críticos e atingir o público da Marvel, dentro da era de polarização por causa das redes sociais, em que cada pessoa precisa escolher um lado, ah, eu gosto da Marvel, eu gosto da DC, eu coloco o feijão por cima do arroz, coxinha se come pela base, essas bobagens de Facebook. E a solução parece que foi encontrada.

Assim fica claro o futuro da DC no cinema, com filmes mais leves, menos desafiadores e direcionados para um público mais novo, que aparentemente é de onde sai mais dinheiro. Não posso julgar, falamos de um mercado de bilhões de dólares, então vale até mexer nas engrenagens com o carro em movimento para conquistar mais público e fazer mais dinheiro.

Mas eu sou um daqueles que gostava do rumo das coisas na DC, eu curti tanto de Homem de Aço quanto Batman V Superman, e no final das contas não desgostei de Liga da Justiça. É um filminho divertido de super heróis, eu apenas esperava mais. Ddiferente de Batman V Superman, que será discutido ainda por anos, Liga da Justiça é divertido e esquecível, dentro do padrão fast food que eu comentei no vídeo sobre o Thor: Ragnarok.

Ou seja, a Warner tá no caminho que ela tanto queria. Pelo menos ainda não tem porrada fofa. Por enquanto.

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