Homem-Aranha: De Volta ao Lar: Um filme que funciona

O primeiro Homem-Aranha, do Sam Raimi, estabeleceu a onda de filmes de super heróis e mostrou para os estúdios que o retorno financeiro do gênero era viável e que investir a partir daquele ponto era muito menos arriscado.

 

Foi o Homem-Aranha de 2002 que permitiu a concepção do Universo Cinematográfico da Marvel. Sam Raimi fez ainda duas continuações, de sucesso, até que a Sony decidir mudar tudo e dar um reboot em 2012, o que aparentemente não gerou o resultado que o estúdio esperava.

Vale lembrar que o Homem-Aranha é o principal personagem dos quadrinhos da Marvel, e a empresa só percebeu a gigantesca burrada que fez por ter vendido os direitos do personagem para a Sony depois do sucesso do seu próprio universo nos cinemas. Ok, ela vendeu os direitos em um momento de crise, tava falindo, ainda não era um estúdio de cinema, a Disney ainda não tinha adquirido a empresa e ninguém esperava que o gênero fosse virar uma mina de ouro.

E a Sony, insatisfeita, pois seu Aranha não alcançava o mesmo sucesso de público e crítica que os filmes da Marvel Studios, negociou e inteligentemente fechou um acordo que satisfez as duas partes.

O Homem-Aranha passaria a fazer parte do Universo Cinematográfico da Marvel, e em troca a Sony continuaria a distribuir os filmes do Cabeça-de-Teia. E parece que essa foi uma jogada perfeita.

Homem-Aranha: De Volta ao Lar entrega o Homem-Aranha mais próximo dos quadrinhos que eu vi no cinema e o resultado me deixou extremamente satisfeito.

Enquanto os anteriores eram interpretados por atores quase trintões, desta vez Tom Holland, que acabou de sair da adolescência, consegue ser mais convincente no papel de um moleque de quinze anos.

Eu teria escolhido um ator de 15 anos mesmo, mas ok, os estúdios tem medo de arriscar e Tom Holland manda muito bem e entrega o melhor Peter Parker de todos.

De Volta ao Lar é divertido, emocionante, pensado para o público juvenil sem se preocupar muito pouco com os marmanjos e é incrivelmente bem estabelecido. O Universo da Marvel no cinema nunca teve um filme tão seguro ou tão exato.

O Enredo de Homem-Aranha: De Volta ao Lar:

Depois dos acontecimentos de Guerra Civil o jovem Peter Parker retorna para Nova York e passa os dias à espera de ser chamado para participar oficialmente dos Vingadores.

Como o filme segue a linha do tempo da Marvel, não perde tempo com flashbacks para explicar como Peter Parker ganhou seus poderes ou como foi a morte do Tio Ben, nada disso, o filme começa no ritmo certo e não perde tempo com informações que todo mundo já conhece.

Nisso ele ajuda velhinhas, prende ladrões de bicicleta, dá saltos mortais para entreter a vizinhança e tenta enrolar a Tia May dizendo que faz parte de um estágio oferecido pelo Tony Stark para que ela não desconfie que ele é o Homem-Aranha nas horas vagas.

Até o momento em que ele encontra um grupo de ladrões de banco que curiosamente usam armas e engenhocas tecnologicamente muito avançadas e decide investigar a origem dessas armas.

Na primeira cena do filme a gente sabe de onde vieram as armas: Um grupo recolheu restos da tecnologia Chitauri que ficou espalhada durante a Batalha de Nova York, aquela do primeiro filme dos Vingadores, e passou a criar armas usando essa tecnologia.

É essa investigação que move o enredo, mas ainda bem que isso é só uma parte do todo. Tem muito mais que apenas heróis e bandidos para ver no filme.

O Cabeça-de-Teia é o meu personagem da Marvel preferido e eu finalmente me senti dentro de um cinema junto com aquele Aranha dos quadrinhos. Aquele.

Foi o primeiro filme do Aranha que realmente colocou Peter Parker no colégio, a primeira vez que a escola faz parte importante da história e a primeira vez que ele realmente agiu como um menino de quinze anos, tímido, inseguro, zoado, que jura que sabe um monte de coisas mas no fundo não sabe bulhufas.

Ele está se entendendo como ser humano enquanto aprende a ser o Homem-Aranha, tudo ao mesmo tempo, na base da tentativa e erro. Só porque ele tem grandes poderes não significa que ele tem já tenha responsabilidade para usá-los.

Os filmes do Sam Raimi até tentam passar essa idéia, mas ainda assim passam longe, falham em entregar um Peter Parker adolescente o suficiente para a gente absorver a idéia. Aquele Peter Parker já era um jovem adulto, era outra pegada.

E agora o filme não se perde trabalhando a parte emocional de se ter superpoderes. Diferente dos adolescentes dos X-Men, em que os poderes quase sempre são uma maldição, aqui ser o Homem-Aranha é a coisa mais divertida que um adolescente poderia querer.

Ele não carrega aquela angústia do Peter Parker do Andrew Garfield, esse novo Peter é leve e confiante na medida certa, sem perder o charme das burrices que todo adolescente comete.

E o crescimento desse novo Peter como super herói é no tempo certo, sem pressa, sem atropelos. E assim De Volta ao Lar fica leve e acessível para todos os públicos.

Homem-Aranha: De Volta ao Lar é engraçado?

Sim. Homem-Aranha: De Volta ao Lar consegue ser o filme mais divertido do Universo da Marvel, e muito, mas muito mais engraçado, com piadas mais inteligentes do que Guardiões da Galáxia 2, por exemplo.

As piadas, vindas de um personagem adolescente, fazem muito mais sentido. Pois Peter Parker não é engraçadalho. O tom do humor é suave e o timing é perfeito: as piadas não são jogadas aleatoriamente só pra fazer o espectador rir. É engraçado ver Peter tentar levar uma vida normal e não conseguir por causa dos seus poderes e porque ele é um adolescente como qualquer outro. Que não necessariamente leva jeito para ser um super herói.

A ambientação faz singelas homenagens aos filmes adolescentes do John Hughes, e como isso funciona bem! E ainda tem o Ned, o melhor amigo do Peter. O jovem ator Jacob Batalon é muito bom e eu acho que ele tem potencial para ser um novo Jack Black.

Ele entrega alguns dos momentos mais divertidos do filme, sem ser irritante, sem querer roubar a cena, sem piadas forçadas. Sua presença é agradável e faz a dupla perfeita com o Peter Parker, é tão equilibrado que nem precisa ficar em segundo plano para não atrapalhar o destaque do personagem principal.

E o melhor: não é porque o filme tem piadas e faz rir que não entrega momentos emocionantes e dramáticos. Tem umas cenas absolutamente tensas no meio do filme, algumas de cair o cu da bunda.

Comédia aqui é só mais um elemento que completa o todo, longe de ser o elemento mais importante.

Roteiro bom é aquele que destaca os personagens principais mas não se esquece dos personagens secundários, que faz a gente se lembrar de todos eles, por menores que sejam. Até o arco do professor que leva os alunos para Washington, que é super simples, é memorável.

Eu costumo dizer que um filme ruim é aquele que a gente se esquece no dia seguinte, e Homecoming passa com méritos por essa prova.

O roteiro é tão redondinho que até a cena pós créditos final é simples e perfeita. Incrível é saber que o ele passou pelas mãos de seis roteiristas diferentes, incluindo o diretor, e ainda assim é completamente coerente e funciona.

Jon Watts mostra que é um ótimo diretor, que sabe trabalhar um roteiro e que consegue entregar um filme sem cara de fast food.

É bom lembrar que De Volta ao Lar é um filme da Sony com o dedo da Marvel, mas é nítido que foge do padrão Marvel Studios. O diretor Jon Watts não parece dirigir no piloto automático, talvez ele não tenha assinado aquela cláusula contratual padrão dos diretores da Marvel Studios que não permite a eles serem criativos ou sairem da casinha.

O filme é ótimo mas tem algumas limitações, não jogou no lixo uma fortuna com efeitos especiais, não tem nenhuma cena de ação absurdamente foda e grandiosa, e quando tem CGI é sempre nas cenas noturnas, para disfarçar os problemas. Mas o filme não precisava mesmo disso.

Watts soube dar equilíbrio e fez com que a história fluísse sem percalços, sem saltos emocionais, permitiu que os personagens crescessem junto com a história sem o uso de peripécias visuais para enganar o espectador.

O maior medo que eu tinha era que o filme fosse mais do Tony Stark que do Peter Parker, a divulgação desesperadamente tentava vender que o Homem de Ferro era peça importante do filme, venham ver o Homem de Ferro, prestem atenção no Tony Stark, o Homem-Aranha é só um detalhe nesse filme do Homem de Ferro.

Todos nós fomos enganados com isso. O filme tem Homem de Ferro, tem Capitão América, mas eles são personagens distantes, ilustrativos, o Tony carrega a importância de ter dado o uniforme para Peter Parker, mas isso a gente já tinha visto em Guerra Civil.

Aliás, o uniforme do Aranha é um personagem à parte, com direito a sua secretária particular, com a voz da Jennifer Connely, e um monte de funções divertidas e inesperadas. Mas isso é pra ser visto no filme, não para ser comentado aqui.

Tony Stark também funciona como uma pseudo figura paterna, isso num nível muito baixo, nada que realmente influencie o personagem. Diferente do que foi vendido, esse é um filme do Peter Parker, não do Tony Stark.

E Tom Holland é carismático bagarai, em alguns momentos ele deixa Robert Downey Jr. no chinelo, e isso é muito bom. O Peter Parker de Tom Holland já é o meu favorito.

Não é um personagem que carrega o peso de ser um super herói o tempo todo, pelo contrário, a descoberta de como usar seus poderes é algo leve e divertido, é um adolescente se abrindo para o mundo, para as novidades, sem se perder em filosofias baratas e sofrimento desnecessário.

E o Adrian Toomes do Michael Keaton consegue se firmar como um dos, senão o melhor vilão do MCU, não que isso seja muita coisa, já que o Universo da Marvel só tem vilão meia boca, né?

Além do cara ser um puta ator, tem um momento no filme, dentro de um carro (não vou dar spoiler, claro), em que ele faz um discurso tão tenso que transformou o seu personagem no melhor vilão da Marvel.

Ele não é o melhor vilão por ser assustador, aniquilador, motherfucker. Não, ele é o melhor pois é humano. Seus objetivos são humanos, não tem nada de absurdo neles. E ele não age como um cientista louco ou como um robô tosco que quer destruir o mundo e eliminar todos os seres humanos do planeta.

Ele é um pai de família, um trabalhador, um sujeito engolido pelas poderosas corporações. Seus discursos são sensíveis para nós, pessoas comuns, ele é um perdedor. Passa longe de ser aquele vilão comum dos quadrinhos e em determinado ponto do filme ele fica ainda mais humanizado.

Seu personagem nunca explode, as mudanças são sutis e o Michael Keaton tem um olhar assustador que numa simples franzida de testa faz o público se segurar nas cadeiras do cinema. É simples, silencioso e perturbador.

Mas isso se dilui quando ele se torna o Abutre. A máscara tira completamente o peso do vilão, ele vira um ser de computação gráfica que poderia ser apenas um capanga pronto para fazer o serviço pesado. Mas o Toomes do Michael Keaton é um vento de refrescância no meu rosto cansado de vilões ruins.

Eu me diverti muito com Homem-Aranha: De Volta ao Lar, me senti respeitado como leitor de quadrinhos que fui durante muitos anos, me senti respeitado como fã do Homem-Aranha, me senti respeitado como consumidor e saí do cinema muito satisfeito.

Sabe quando um filme tem um barco que é cortado ao meio e que deveria afundar mas não afunda e nem assim a gente se importa, pois a magia do cinema conseguiu te jogar de volta naquelas revistinhas em quadrinhos que você lia quando era moleque? Foi assim que eu me senti.

Homem-Aranha: De Volta ao Lar é para o fã que está cansado de assistir a filmes de super heróis que tratam o espectador como consumidores idiotas que engolem qualquer porcaria.

Tem uma pegada mais humana, é muito divertido e entrega uma história com substância, com um roteiro que funciona, que não deixa de lado o bom conteúdo. É um filme redondinho, muito bom de ver. Só não precisava ser em 3D.

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