Martin Scorsese: 75 anos em 5 Filmes

17 de novembro de 1942. Nascia no distrito nova-iorquino de Queens, filho de imigrantes italianos, Martin Charles Scorsese. Arraigado à cultura fílmica precocemente, o jovem ítalo-americano também presenciou de forma imatura o flerte com a cultura local de Little Italy – que ia além das telas. O contato com a religiosidade das paróquias e o crime presente nas ruas (ambos predominantemente geridos por ascendentes italianos) fez com que recaísse sobre o jovem Marty uma encruzilhada, que indicava caminhos opostos e tão perigosos quanto. Eis que o aspirante a realizador optou pelo meio-termo, e “o pior de todos, o Cinema”, segundo o próprio.

 

Tomado pela verve com que fora influenciado desde a infância e o apuro técnico obtido na NYU (além de eventuais colaborações em partes técnicas de trabalhos de terceiros), Scorsese primou pela visceralidade mundana ao longo de toda sua carreira. Não obstante, tal temática consegue também a representação de forma quase fantástica dos universos trabalhados. O glamour subversivo em Os Bons Companheiros (1990) e Cassino (1995). A total corrosão psíquica servindo de espelho à sociedade contemporânea de Taxi Driver (1976). O espírito inabalável e personalidade raivosa do boxeador Jake LaMotta em Touro Indomável (1980).

A tônica presente em tais percursos do diretor explora em diferentes escalas o fascínio que Martin possui pela relação barroca entre profano – sagrado, a qual também corresponde Homem – Deus. Sem cair em discursos fáceis e baratos, a temática subverte expectativas de espectador e o próprio conceito tal qual fora tratado desde os séculos remotos da cultura ocidental.

E tão fascinante quanto a observação desta hegemonia no cinema de seu realizador é o encantamento que público estabelece até os dias de hoje com suas obras (da geração Nova Hollywood, Scorsese é o mais fascinante e duradouro diretor, em diversos aspectos). Tendente a renovações técnicas, no entanto, um exemplo é Silêncio (2017), filme o qual é tão tematicamente similar a Kundun (1997) ou A Última Tentação de Cristo (1988). Carregado de um tom naturalista que conecta-se com o íntimo do personagem central, também retoma laços de compromisso vistos em outros trabalhos do diretor.

Visando, contudo, fugir destes temas, este texto (que passará ao formato de lista daqui por diante) irá indicar uma outra espécie de cinema por parte de Scorsese e que a muitos passou batido – ainda que em fascínio não deixe nada a desejar quanto seus outros títulos. Eis aqui, já em celebração aos 75 anos do cineasta, algumas indicações para conhecer uma faceta não tão comum do diretor, e ainda enriquecer laços com o próprio e o Cinema de forma geral.

1. O Rei da Comédia (1982)

Esta epopeia sobre um fracassado aspirante a comediante estrela Robert De Niro como Rupert Pupkin, à beira de um surto psicótico. O elenco conta ainda com Jerry Lewis (em um papel completamente subvertido ao que explorou em sua longa carreira, e tão hábil quanto), Sandra Bernhard e Diahnne Abbott. Apesar de pouco datado aos padrões rítmicos de Scorsese, é mordaz o suficiente ao tecer seus comentários sobre a devoção pública a figuras midiáticas, e também lépido quanto ao humor negro empregado em suas piadas e situações patéticas – além de ser um triste retrato sobre uma mente conturbada. Disponível na Netflix.

2. Depois de Horas (1985)

Premiado como melhor diretor em Cannes, Scorsese concebe este pesadelo suburbano como um looping desesperador, que aflige tanto o protagonista vivido por Griffin Dunne quanto expectador. Fragmentos que mais parecem ter sido extraídos de alguma surreal obra de Luís Buñuel, apostando no fantástico e não menos visceral que seus outros exemplares. Se analisado friamente, fecha uma trinca bacana sobre as intermináveis noites e ciclos viciosos das ruas nova-iorquinas com Taxi Driver e Vivendo no Limite (1999). Pérola que vem ganhando visibilidade e maior apreço do público nos últimos anos, é indiscutivelmente a obra com menos particularidades do diretor – sem cair na facilidade de qualquer emulação banal.

3. A Cor do Dinheiro (1986)

Desafio à Corrupção (1961) foi um filme celebrado à sua época de lançamento, rendendo um prêmio Oscar ao excelente George C. Scott, coadjuvante do longa. Vinte e cinco anos depois, remodelando equipe, tom e abordagem, o que continuou foi o “esporte” (sinuca, no caso) e o protagonista: Eddie Felson, interpretado aqui e lá por Paul Newman. No original, o jogo era um meio de embate entre fortes personalidades antagônicas, que punha como aposta valores morais e ambições próprias.
Em sua sequência, o então lendário Felson vê semelhanças de sua jovem persona no iniciante Vincent, interpretado por Tom Cruise. Uma banal relação entre mestre – aprendiz inicia-se, ganhando contornos críticos e conflitantes com a entrada da namorada de Vincent em meio aos dois: Carmen, encarnada por Mary Elizabeth Mastrantonio. Filme menor de Scorsese, impressiona pelo estilo e ritmo ágil empregado na dinâmica do trio principal e os embates nas casas de jogos – já que os pessoais não chegam a empolgar.

4. Cabo do Medo (1991)

Refilmagem de Círculo do Medo (1962), o qual fora estrelado por Gregory Peck e Robert Mitchum (que neste novo exemplar aparecem em importantes pontas), Nick Nolte e Robert De Niro dão forma a um embate virulento entre um advogado e seu antigo cliente (cuja prisão deu-se por omissão do primeiro). A adaptação utiliza conceitos de thrillers e slashers posteriores ao original, tornando a figura de Max Cady, papel de De Niro, como um dos mais ameaçadores da história do Cinema. O conflito traz consigo a exposição de que há algo de podre no cotidiano dos habitantes de uma cidadezinha ao sul dos Estados Unidos, questionando valores familiares e suas hipocrisias e abrangendo ainda questões de moralidade e corrupção num quadro generalizado. Jessica Lange e Juliette Lewis compõem o elenco com personagens que tentam permanecer fortes e desobedientes a imposições meramente sociais. Apesar de toda a composição do retrato americano, o filme é uma ágil incursão do gênero, com um De Niro maníaco e arrancando o fôlego do espectador.

5. A Época da Inocência (1993)

Uma das melhores atuações de Daniel Day-Lewis é a deste filme, que fora esquecido pelo tempo entre o amontoado de obras anteriores e subsequentes do diretor. Vivendo Newland Archer, o britânico compõe por meio de gestos e olhares os trejeitos de um personagem que permanece dúbio durante toda a trama. Os alvos de ternuras e olhares espinhosos são as atrizes Winona Ryder e Michelle Pfeiffer (não respectivamente). Permanece como um dos grandes contos sobre a dualidade humana em meio a pressões institucionais e desejos pessoais, substituindo a devoção religiosa por um cenário mais amplo. A caracterização epistolar entrelaça perspectivas e contribui ao tom charmoso de época, sendo um dos mais belos filmes do cineasta.

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