Dunkirk

Christopher Nolan é um daqueles diretores que atingiram um patamar tão alto que ele pode filmar o que ele quiser. Seu sucesso de crítica e de público é tipo um cheque em branco em Hollywood e ele fez Dunkirk com esse cheque.

 

E aparentemente ele tava ansioso para levar para o cinema a história do Milagre de Dunkirk, um momento da Segunda Guerra Mundial onde quatrocentos mil soldados aliados estavam acuados em uma praia francesa na divisa com a Bélgica pelo exército alemão e esse é o primeiro filme do Nolan que não tem a ver com ficção científica ou história de crime.

Não caia muito na armadilha dos críticos que dizem que Dunkirk é a obra-prima da carreira de Nolan. Todo mundo sabe que eu não sou exatamente um fã do trabalho dele, mas depois de analisar rapidamente seus principais filmes foi possível perceber que aqui sua intenção aqui foi a de chamar a atenção dos velhinhos do Oscar, que não parecem não gostar muitos das suas ficções científicas meio quebra-cabeças.

Quando saí do cinema eu tava meio empolgado com o espetáculo visual, oh, finalmente um filme do Nolan que eu curti de verdade, mas quando eu parei pra pensar nele, mastigar o roteiro, a poeira baixou e o hype e PUFF!

Quem acompanha meu trabalho sabe que eu não sou fã do trabalho do Nolan por N motivos, se eu fosse falar sobre isso daria um vídeo inteiro, mas tem como eu negar negar que ele é um cara com culhões para colocar uma câmera IMAX na ponta de um jato só pra filmar a abertura de um filme, que não economiza para usar uma geleira na Islândia como um planeta inóspito, ele é um cara que entrega o máximo que ele consegue, e isso raramente é pouco.

Mas como cineasta, contador de histórias, ele tem lá suas limitações… e neste momento com certeza os nolanzetes já devem estar tacando ovos em mim.

Dunkirk é contado sob três perspectivas, uma pela terra, outra pelo mar e outra pelo ar, e a cada troca de ponto de vista dá pra sentir que a intenção do diretor é mais fazer esses três pontos se conectarem de alguma maneira que realmente contar uma história emocional, e fazer essa emoção fluir para o espectador.

O esforço para que as três perspectivas se encontrassem parecia muito mais importante que se aprofundar nos acos de cada um dos personagens envolvidos nelas.

A cena de abertura é muito boa, joga o espectador em um terrível cenário da Segunda Guerra Mundial, e rapidamente o Nolan consegue deixar bem claro o caminho que cada uma das perspectivas vai tomar, isso ele entrega com maestria.

As explosões iniciais, na praia, fazem o espectador se entender que o que vai ver não foi brincadeira, que a brutalidade da guerra é enorme e a dificuldade de sobreviver a ela.

Até certo ponto tudo ia lindo, até que eu me peguei pensando que o filme repetia o mesmo caminho para cada uma das perspectivas e os arcos dos personagens teriam que se encontrar em algum ponto, era essa a intenção do Nolan, mais do que explorar as escolhas e drama de cada um dos personagens.

Em um bom roteiro cada acontecimento deve empurrar a história, levar para a cena seguinte, e ainda assim conversar com cena anterior, e isso meio que falta no roteiro de Dunkirk.

Aqui os personagens estão presos em uma fuga depois da outra. O cara se fode, e depois se fode de novo, e de novo, até que o espectador deixa de se identificar com os personagens e passa a assistir em piloto automático, aconteceu comigo, e eu passei a pensar que o filme, que é o mais curto do Nolan desde 2002, poderia ser ainda mais curto, e se tirasse diversas cenas que só servem para encher os olhos do espectador, quem sabe ficaria mais dinâmico e menos arrastado.

O tal Milagre de Dunkirk, que foi a retirada dos soldados, é perdido no roteiro, e não fica envolvente o suficiente. Nolan foca em pontos errados e não perde de passar toda a emoção que poderia.

Por exemplo, é muito difícil notar a verdadeira perspectiva da grandeza que seriam os quatrocentos mil soldados presos naquela praia, e isso se perde graças a mania de fazer linhas do tempo independentes que o Nolan tem.

O que ele mostra para o público são poucos barcos a caminho do resgate e praticamente apenas um avião. Aliás, dois aviões, um britânico e outro alemão, e tudo fica vazio demais para um filme que conta uma história grandiosa da Segunda Guerra Mundial.

Quando ele nos apresenta os soldados, em um trecho da praia, não parecem ser os tais quatrocentos mil soldados, e pra conta fechar eu precisei entrar no Google para entender o motivo dessa sensação de buraco.

Na história real, foram dez dias de barcos indo e vindo, carregando os soldados, barcos britânicos, franceses, poloneses, belgas e até canadenses, e trezentos e trinta mil soldados atravessaram o Estreito de Dover no período de dez dias.

Mas o filme peca demais nesse sentido, a sensação de espaço é terrivelmente mal apresentada, sem indicação clara de onde os personagens estão, e isso deixa o suspense limitado a brincadeira temporal do Nolan.

A idéia dele parece ter sido criar uma sensação claustrofóbica às custas da referência do público, sem desenvolver melhor o sentimento de ação ou criar personagens interessantes. E quando eu falo de ação, eu não tou falando de lutas e explosões, eu tou falando do movimento do drama.

Os personagens em sua maioria não tem nomes. E a falta deles faz com que a audiência se perca em alguns momentos e deixe de se relacionar com eles. O único personagem estabelecido é Mark Rylance, o tiozinho do barco – que aliás é um puta ator e seu nome vai aparecer na lista de atores indicados ao Oscar isso eu não tenho dúvidas.

Em Além da Linha Vermelha, um dos melhores filmes que eu assisti em toda a minha vida, o público também não sabe o nome da maioria dos personagens, mas isso não importa, pois o diretor sabe captar a atenção da audiência para a história que deve ser acompanhada, o enredo não deixa de ser importante em nenhum momento.

Em Dunkirk a gente tem apenas rostos e uma história confusa. O rosto que o público conhece e se relaciona é o do Tom Hardy, mas não por causa do personagem que ele interpreta, mas porque ele é o Tom Hardy, o Mad Max, o Bane.

Aliás, o avião do Tom Hardy, sozinho, termina o filme mais como um personagem de um filme do Michael Bay que de um drama de guerra com os pés no chão, e esse momento final fez com que eu me desconectasse ainda mais do enredo.

É como se o Nolan não estivesse interessado em contar uma história de guerra pela perspectiva do ser humano, o que é estranho quando sabemos a vida é que mais custa dentro de uma guerra.

O Nolan é macaco velho, tem experiência suficiente para desenvolver cada um dos personagens profundamente, então a pergunta é: por que raios ele não fez isso em Dunkirk?

Minha aposta é que a idéia dele era fazer um filme de guerra imersivo, visceral, que ecoasse na falta de esperança dos personagens diante do perigo e que todos fossem personagens sem rosto, assim como é a apresentação do alemães.

Essa aposta explicaria a idéia de ter um ritmo mais tenso conforme o filme se desenvolve.

A introdução é muito boa – o que não é exatamente uma coisa muito difícil, principalmente em um filme de guerra que conta um dos momentos mais difíceis dos soldados aliados durante a Segunda Guerra Mundial. Mas o resto do filme é mais do mesmo.

Pelo ponto de vista técnico, o espectador vai perder o fôlego diversas vezes, e a trilha sonora do Hans Zimmer é sensacional e explode cabeças. A tática de usar os efeitos sonoros e a música para expandir os sentidos e construir uma sensação de pavor é perfeita. Dá pra sentir os aviões passando atrás das cadeiras do cinema, dando a volta para atacar o público.

A inserção de um tique taque transforma uma cena que poderia ser burocrática em um momento de tensão.

A fotografia do filme é linda, a profundidade aérea por causa do IMAX é impressionante – assista em IMAX se puder – e o diretor de fotografia, Hoyte Van Hoytema, sabe o que tá fazendo e provavelmente também vai ser indicado ao Oscar.

Filmes de guerra normalmente tendem a ser excessivamente patriotas, com histórias heróis que se sacrificaram por um objetivo maior, com narrativas densas e personagens bem desenvolvidos.

Os filmes de guerra são um gênero que tem padrões que podem ser explorados de várias maneiras e pontos de vista, podem ser imersivos como Apocalipse Now! ou contar a história sob o ponto de vista do inimigo, como em A Cruz de Ferro, ou pelo ponto de vista humano, como O Resgate do Soldado Ryan.

É um gênero que, como qualquer outro, independente da situação ou maneira que é apresentado, deve se preocupar com a entrega uma história interessante e principalmente personagens para o público se relacionar e se preocupar com eles.

Nolan sacrificou essa preocupação para criar uma experiência de Guerra e mergulhar o público em um enredo que é uma série de momentos angustiantes, um atrás do outro, e que não se conectam emocionalmente com o público.

É como se o Nolan tivesse pensando em fazer um passeio visual espetacular em um cenário de guerra para que o espectador se sentisse naquele momento, nada além que um parque de diversões onde que o passeio é mais importante que a emoção.

E eu, que reclamo que o Christopher Nolan é expositivo demais, como naquela cena ridícula em Interestelar, quando o cientista explica para o Capitão como funciona um buraco de minhoca enquanto eles passam por um deles, confesso que nesse novo passeio criado por ele senti falta dele explicar um pouco mais sobre a verdadeira história por trás da batalha de Dunkirk.

Depois de assistir ao filme procura no Google, você vai descobrir um dos momentos mais legais da Segunda Guerra Mundial.

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