Demolidor e a religião

Demolidor foi oficialmente criado por Stan Lee e Bill Everetty, e teve sua estreia nos quadrinhos em 1964. Mas foi quando o lendário Frank Miller colocou as mãos no sujeito, é que a coisa engrenou. De lá pra cá, o herói ganhou um filme bastante esquecível, tem duas temporadas completas na Netflix e vai voltar às telas com Os Defensores, o supergrupo “pé no chão” da Marvel, também no serviço de streaming.

 

Uma das coisas que faz de Demolidor um personagem interessante é o seu relacionamento com a fé. Matt Murdock é um cidadão cego, acima de qualquer suspeita, que combate o crime tanto na esfera jurídica, como advogado de defesa, quanto nas ruas como um vigilante mascarado.  E como se isso já não fosse contraditório o bastante, o cabra ainda é católico.

Apesar não poder enxergar, ele tem todos os outros sentidos superaguçados e uma espécie de sonar interno. Ou seja, ele percebe o mundo a sua volta de uma forma quase ilimitada.

E de todos os personagens, o Demolidor é o que mais nos atiça os problemas filosóficos da fé.

Afinal, a religião é fonte de força ou de fraqueza? Ela é boa ou ruim?

Uma pessoa muito religiosa é cega para o mundo a sua volta, como Matt Murdock, ou dispõe dentro de si um mecanismo que a permite ver além, como o sonar de Demolidor? Sacou o tamanho da treta?

Na verdade, podem ser os dois. Existe um principio filosófico que diz que o mesmo potencial que uma coisa tem para o bem, tem para o mal. Invariavelmente. Seja uma agulha, um livro ou uma equação matemática, tudo depende da forma como usamos essas coisas. O mesmo vale (duplamente) para a religião.

No caso de Matt, que vira e mexe se sente tentado a cruzar a linha que separa heróis e vilões, a religião surge como uma bússola moral bastante eficaz. Aliás, na série, isso é amplamente discutido. Mas há também histórias em que sua religiosidade serve como um boost de força interior e autossuperação. Ou seja, Demolidor usa a religião como a maioria de nós. Ora como uma chave de segurança quando a realidade oprime para além do suportável, ora como uma forma de nos mantermos firmes aos valores que acreditamos.

Demolidor também é conhecido como o Homem sem Medo. Mas, pela visão tradicional da igreja, como um homem de fé pode não ter medo, se a fé é justamente a ponte sobre nossos temores?

Bem, vamos entender aqui o que é fé.

É muito fácil confundir fé com superstição. Superstição é uma tentativa desesperada de manipular a realidade aos nossos caprichos com rituais e coisas que fazemos. A fé, no entanto, é uma espécie de rendição do ego. É um desprendimento total de si em prol de uma coisa maior que o eu. Envolve aí um entendimento profundo da realidade e cultivo de valores positivos.

A fé tem mais a ver com o compromisso aos valores absolutos e benéficos, do que com a crença religiosa.

Além de habilidades extraordinárias e muita inteligência, um super-herói também precisa de outro tipo de força, que podemos chamar de firmeza de caráter. E entre todas as coisas que um caráter forte traz, é a constante preocupação com a comunidade e o impacto motivacional das suas ações.

Se entendermos que Demolidor é realmente um homem sem medo, então é também alguém sem coragem e com pouco senso de compaixão. Acho que a questão aqui é: Demolidor não age SEM medo, mas APESAR dele. E graças –talvez – a sua religião. Porque, para fazer o que um super-herói faz, é preciso certa dose de inconsequência, sim, mas acima de tudo, muita fé.

Vamos falar de coisa boa?

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