Crítica: Um Lugar Silencioso

O terror, como gênero versátil que é, tende a abrigar novas mentes do cinema, que estejam dispostas a replicar ou estender novas fórmulas ao gênero. Seguindo novos ditames e formulação específica de regras dentro dos próprios projetos, como os recentes Corrente do Mal, Ao Cair da Noite e Creep 2, o badalado Um Lugar Silencioso chega aos cinemas com a pompa de ser produzido por Michael Bay e com ambição conceitual ao propor uma única diretriz: o silêncio, quase que absoluto.

 

Sem delongas, o filme situa todo o cenário no qual operará por toda sua duração já em sua cena inicial: a Terra tomada por criaturas movidas por sua audição supersensível, atacando impiedosa e mortalmente a fonte do ruído. Em meio ao cenário desolado, uma família, composta pelo casal (John Krasinski e Emily Blunt) e seus dois filhos (Millicent Simmonds e Noah Jupe), convive em total silêncio a fim de sobreviver.

O som é um dispositivo basilar na construção de qualquer filme que proponha ameaça. Um Lugar Silencioso embarca no suspense ao privar seus personagens de ações triviais, em que qualquer interação (incluída a própria comunicação auditiva) desempenhada pelo quarteto, coloca em risco a sobrevivência de todos. Toda meticulosidade arranjada ao mastigar, falar, andar e qualquer outro ato que exija movimento, estende a tensão da ameaça latente, tornando qualquer ruído uma situação aflitiva.

A partir de tal condição, o roteiro assinado por Scott Beck e Bryan Woods (com colaboração do próprio Krasinski) trabalha de forma inteligente o desenrolar de seus acontecimentos. Ao passo do andar da trama, há desenvolvimento natural das relações entre cada membro da família, com superações e amadurecimento. Levando em consideração uma tragédia recente, todos os personagens exprimem a convivência com o trauma de forma particular. Além de aprofundar os personagens, trazendo-os para perto do público, este artifício desenvolve-se em conjunto com a narrativa, elevando as possibilidades de desdobramentos desta, ainda que preze mais pela ameaça externa e podando grandes conclusões com base nisto em seu último ato.

Apesar de bem apresentada durante boa parte da projeção, a proposta assentada no silêncio perde força em sua última meia-hora, tornando-se repetitiva, com sucessão previsível de eventos a ponto de transferir de um personagem a outro os esforços para sobreviver. Não fosse o belo desempenho do elenco, conferindo urgência às já familiarizadas situações com o público, os últimos instantes teriam esvaziado o restante da construção anterior em sua conclusão.

A repetitividade, no entanto, deflagra outro fator falho do filme: a necessidade de exposição. É grave um filme em que pouquíssimas falas são ditas por seus personagens martelar vários elementos ao espectador. Em vez de imprimirem tensão e desconforto por si só (como artifícios cautelares que são) estendem a possibilidade de perigo por mera repetição, desconfiando ao público a capacidade do possível temor. De um mural explicando o comportamento dos monstros, a um prego solto na escada, são detalhes que demonstram certa insegurança neste terceiro trabalho de Krasinski como diretor – ainda que este tenha maturidade na exploração do ambiente e seus demais objetos por meio da câmera.

A engenhosidade dos planos expostos é coerente à proposta narrativa. Há tratamento especial quanto a composição em tela, valendo-se da expressão e reação dos atores, além de apurar o sentido auditivo para a especulação fora de quadro, alimentando a tensão entre espectador e personagens.

O imprescindível trabalho de som justifica até mesmo os excessivos jump scares, surgidos pelo abrupto aumento de som, de qualquer elemento que irrompa o ambiente. De tal forma, é utilizada maior variação dos sons de adereços diegéticos vistos em tela, contribuindo para a imersão proposta. Interessante também é a alternância entre perspectivas de cada cena, trabalhada conjuntamente entre imagem e som ao destacar o ponto de vista da personagem mirim surda ou do restante do elenco.

Sem se prender a pretensões ou maiores especulações além do apresentado, Um Lugar Silencioso é um longa honesto, em proposta e execução. Não se interessa em marcar o gênero ou sedimentar o (execrável) “pós-terror”. Ainda que sabote a intensidade dramática em prol da manutenção de seu ritmo, exibe maturidade ao equilibrar as adversidades enfrentadas pela família à necessidade de se adaptarem às “regras” do filme – pactuando o próprio público neste eficaz exercício de gênero.

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