Crítica: Trama Fantasma

Londres pós-Guerra. A Casa Woodcock de alta-costura prospera em meio à burguesia, artistas, socialites e realeza. Reynolds (Daniel Day-Lewis), o artesão e idealizador por trás das linhas e agulhas, exprime sua arte tendo como combustível belas e jovens mulheres. O intermédio de todos os vaivéns da casa (que ainda conta com inúmeras costureiras e os caprichos de Reynolds) ocorre por parte de Cyril (Lesley Manville), irmã do protagonista e real administradora do ambiente e, aparentemente, único apego sentimental do estilista.

 

Como um metódico artista e desprendido amante, Reynolds descarta com maior facilidade suas temporárias musas do que pequenas peças de tecido, salvas em sua casa de campo. Ao passo em que encontra-se numa espécie de “bloqueio criativo”, Alma (Vicky Krieps), garçonete aparentemente ingênua e destrambelhada, aparenta ser a nova solução imediata para o “garotinho esfomeado”, como a própria se refere ao protagonista em seu primeiro encontro. Nova musa e eventual colaboradora, Alma irrompe à convivência daquele ambiente disposta a adequar-se e modificá-lo o quanto for possível e necessário, a fim de ser mais que uma paixão e inspiração passageira na vida de Woodcock.

Uma das possibilidades de encarar o novo longa de Paul Thomas Anderson seria a discussão da aparência e suas variantes. O próprio termo, recorrente acima, é uma forma de reiterar tal prisma. Reynolds lida e investe seu interesse por medidas, formas e manequins; a ele, pouco interessa a essência de seus efêmeros relacionamentos ou o que constitui cada uma de suas coadjuvantes (Alma, por exemplo, nunca chega a citar algo de seu passado e seus próprios gostos). Reynolds vê-se como artista, e seu processo criativo dependendo de seu total controle. Isso se estende a suas ações cotidianas e para com aqueles que o cercam. Seu estrito controle pelas peças que movimenta de forma calculista não permite distúrbios em sua rotina (afinal, arruinar a primeira refeição arruinaria o dia todo) ou envolvimento sentimental que possa extrapolar suas necessidades básicas – suas criações e o processo que leva a estas.

Como os próprios vestidos criados por Reynolds, capazes de delinearem novas personalidades a quem quer que os use, qualquer ação empregada pelos Woodcock e a nova amante do artista traja de forma conveniente sua própria situação. O simples “erro” ao ser utilizado óleo em vez de manteiga num certo preparo, amolados comentários num suave tom de voz, um copo d’água servido lentamente; cada situação é articulada por seus responsáveis a fim de servir a um calculado propósito pessoal, revelado e omitido de acordo com a intenção do próprio diretor.

Esse jogo de cumplicidade entre as personagens também se estabelece entre os joguetes de Anderson e a reação do espectador; passeando entre diversos (sub)gêneros, a trama chega a assimilar algumas peculiaridades para, enfim, abandoná-las, subvertendo a noção da história e a expectativa do público. Sob tal tônica, o filme cria uma dolorosa (e não menos prazerosa) história de amor, ocupando espaços no melodrama, comédia, romance, suspense e, até mesmo, terror.

Mantendo aproximação do cinema anterior de Paul Thomas Anderson, a dinâmica e fluência de poder dita o ritmo das confrontações entre personagens e o prosseguimento do roteiro, sendo somente capazes pela meticulosa relação entre os intérpretes e diretor. A relação entre corpos e espaços, aos quais os primeiros são submetidos e ora sufocados, provê tanta força dramática quanto os espinhosos olhares e as fervorosas discussões. A força que entrelaça e distancia cada personagem é palpável, sendo elemento recorrente entre a conexão estabelecida em tela e ao que nos apegamos.

E é em meio a esse ambiente que a câmera (tendo a fotografia também assinada por Anderson) opera: mais que narrar o desenrolar da trama, acaba guiando a atenção do espectador a pequenos desconfortos e tomadas de poder, amplificando tais gestos e nos adequando sensorialmente àquele lugar (apoiado pelo desenho de som, que arranca nervosos risos em certas cenas).

Convergindo alguns dos aspectos básicos da filmografia de Anderson, Trama Fantasma revela-se como uma bem dosada soma e amadurecimento das idiossincrasias do diretor e sua obra. O longa descarta fáceis recursos narrativos, tornando-se funcional por si só e pelo que tece em sua projeção. Tal qual Alma, cabe ao espectador participar do jogo de abuso, submissão e poder proposto em cena – mesmo que dependendo da empatia com os personagens, em que fascínio e repulsa são tão alinhados e sintomáticos um ao outro, tornando a obra um raro objeto de admiração.

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