Crítica: Parque do Inferno

Ao fim deste ano mais um representante do gênero terror tenta aproveietar-se dos últimos suspiros do halloween (a tradicional festa anual, não o filme) a fim de aplacar o público com sustos, tensão, violência e, por que não?, diversão. Parque do Inferno (Hell Fest, 2018) é o mais novo encarregado de tal função, lançando mão da festividade típica do período em seu próprio desenvolvimento.

 

Para tanto, o Parque do Inferno, evento ficcional temático do Dia das Bruxas, é o atrativo para um pequeno grupo de amigos que procuram aproveitar um final de semana com a recém-egressa da cidade e caloura Natalie (Amy Forsyth). A típica final girl do gênero, se não virgem, um tanto pudica, embarca com o restante de estereótipos funcionais (o bonitinho e carinhoso; o porra-louca; a melhor amiga desastrada; o amigo sem-noção; e, inevitavelmente mais insuportável de todos, a descolada e sarcástica sexy girl) nesse antro de descontração e cristalização além dos temores, mas, principalmente, da própria lascívia contida por seus personagens e exteriorizada no ambiente.

Soma-se à premissa o vilão mudo e mascarado, imparável, a própria força natural (da exposição que o parque oferece e sobretudo da que os jovens oferecem no local) que se arrasta por todos os cantos, muitas vezes como o típico voyeur consagrado do gênero, atrás do bando, o qual, por necessidades narrativas, esforçam-se a ser perseguidos.

Se a trama (assinada por seis roteiristas!) não se esforça na tentativa de ser original, o notável em Parque do Inferno, como visível em sua proposta, é a relação entre o temor ao qual os jovens submetem-se espontaneamente e o medo causado pela perseguição do assassino, imposto quase que inconscientemente por vontade dos mesmos personagens. Tudo isso é materializado em dois planos dentro do mesmo universo, partindo da premissa do horror de permitir o livre-trânsito de um assassino em meio a tantos outros atores mascarados; operando ora pelo absurdo das fantasias (manifestadas na experimentação do proibido, referente ao parque e à sexualidade) do local, ora pela agressividade do vilão; objetos cênicos que se confundem (propositalmente) tanto como artigos do parque, e que servem somente ao ubíquo perseguidor, atestando sua capacidade sobrenatural, quanto também composição do filme em si, trazendo o público para perto dos personagens neste sádico de jogo de identificação entre real e ilusório.

É essa dualidade que fundamenta a melhor parte do filme: após a primeira hora morna, apresentando amiúde tal lógica, Parque do Inferno torna-se de fato o Parque do Inferno que nomeia a obra, tornando cada nova ação de seu algoz como consequência da imbecilidade autoimposta do quinteto principal (bem representada pela descida, metafórica quando considerado o vilão e “literal” se visto o parque, ao inferno).

Pena é perceber que tal desenvolvimento se dá no último terço da projeção, inflado em seu restante pelas já citadas conveniências de roteiro (ó entediante recurso a fim de separar seus personagens e prolongar suas inacabáveis agonias!), ausência de personalidade (e até mesmo carisma) dos personagens e investimento em sustos baratos e previsíveis. Detendo-se ao último, é sintomática sua condição como assustador inoportuno se notada a direção de Gregory Plotkin (recorrente montador de filmes de terror recentes), a qual trabalha o extracampo somente a fim de causar breves e inócuos sustos, perdendo boas chances de estender a tensão ao captar em tela a assustadora ideia que concebe Parque do Inferno. E se a cada novo ambiente do parque existem também novos temores aos personagens, o mesmo não se aplica do ecrã ao espectador, que observa, impassível, repetição após repetição dos mesmos sustos e gritos (apresentadas numa montagem paralela que, na cena da cabine de fotos, chega a esboçar uma interessante ferramenta formal ao fundir, por meio da câmera lenta em diferentes planos, caça e caçador num único ritmo).

Em conjunto à pouca exploração e falta de harmonia entre tensão-violência-diversão, Parque do Inferno é um título indeciso entre a paródia, homenagem ou mera réplica dos slashers pós-“Halloween” (agora, sim, o filme). O pouco que cativa junto ao público não é suficiente para estender o clima macabro desta época do ano e, provavelmente, muito menos a torná-lo uma subsequente franquia de sucesso no cinema.

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