Crítica: O Processo

Ambientado em meio ao processo de impeachment, o qual depôs Dilma Rousseff de seu cargo de presidente da república, em pleno exercício no ano de 2016, O Processo (ainda que com enfoque nos bastidores e estratégias da cúpula do Partido dos Trabalhadores e correligionários) não busca ser um simples manifesto ou apanhado de ideias. Enquanto documentário cinematográfico, opera de forma exemplar: não seguindo fórmulas presentes (e já desgastadas) no gênero, o longa situa seu olhar por meio da câmera na forma mais estrita como observadora, potencializando a capacidade primeva do cinema (o ato de narração por meio de imagens) em detrimento de uma narrativa tradicional.

 

O filme inicia-se em um prólogo de dez minutos, ao percorrer a câmera num plano aéreo entre manifestantes em frente ao Congresso Nacional, separados por grades e cores dos trajes. Avançando adentro da Câmara dos Deputados, onde ocorria a votação pela instauração do processo de impedimento, o anseio popular brevemente apresentado toma a forma de como será trabalhado pelo restante da projeção – não como manifestação propriamente popular ou apartidária (o que seria desonesto e contraditório, desconsiderando o fato da mandatária ter sido legitimamente eleita por 54 milhões de eleitores), mas joguetes políticos articulados por figurões escusos e incongruentes em seus próprios discursos.

A turbulência inicial cede espaço aos esforços da base política, representada pelos petistas Gleisi Hoffmann e Lindbergh Farias, nos bastidores do Senado a fim de deslegitimar a tramitação do processo e, posteriormente, elaborar a defesa em conjunto com o ex-advogado-geral da União José Eduardo Cardozo. Utilizando-se de seu senso de urgência sabiamente dosado, o longa acompanha as incontáveis reuniões e sessões parlamentares, da observância ao deferimento do processo, e o enfrentamento de cada polo político. De discussões ideológicas à exposição do conteúdo da denúncia, os embates ganham contornos mais sérios (e devidamente tratados pelo ritmo transcorrido da montagem) a partir da tomada de ações de Cardozo ante a jurista Janaína Paschoal, denunciante e coautora do pedido de impeachment, e demais opositores.

O Processo descarta qualquer didatismo e julgamento do exibido. Apesar de acompanhar a defesa da ex-presidente, Maria Augusta Ramos, diretora do filme, aposta na capacidade de discernimento do espectador – refletido, por exemplo, ao não utilizar cartões ou quaisquer descrições dos atuantes do processo, aliados e opositores. Em nenhum momento o longa apela a recursos banais, como embalo pela trilha sonora ou o uso de um locutor consciente para com a câmera. Com exceção de transições temporais, as quais contam com pequenos textos (substituindo a narração, elemento de maior pessoalidade e quebra do naturalismo empregado) a fim de contextualizarem período a período do rito, o filme é inteiramente um conjunto de gravações próprias com o acervo da TV Senado e TV Câmara, expondo a imagem como esta realmente é.

Mesmo que observadora, a câmera da diretora rompe a barreira, diversas vezes, do que é gravado por si ou captado por outrem. A organização do que é apresentado ainda faz questão de dialogar imagem com imagem, ao capturar as expressões dos envolvidos como reações a cada argumento levantado, por defesa ou acusação. Estabelecendo tal senso dialético, fotografia e montagem aproximam o espectador e estendem a tensão da situação, tornando o longa, em crescendo, apreensivo do início ao fim.

Sem poupar o governo de duras críticas expressas pela oposição, O Processo também destina trechos em que os próprios parlamentares da base governista constatam a complicada situação, tanto do impedimento quanto da indisposição governamental, culminante de práticas e alianças duvidosas desde que o partido assumiu a presidência. O tom soturno que toma conta do filme a partir de sua segunda metade é condizente com as sucessões de acontecimentos, tendo como principais objetos desta exposição os senadores e demais aliados (antes enérgicos e até variando entre contestações e deboches), estafados e irritadiços em dado momento.

Não preocupado em se abster de posição política ou críticas (direcionadas a todas as esferas públicas envolvidas e seus representantes), a adoção de um discurso, por meio de elementos propriamente fundados com o cinema, é o que torna esta produção muito além de um objeto panfletário. Mais que um bem talhado retrato panorâmico de um país esfacelado por suas instituições, O Processo é um riquíssimo documento para o Brasil e o mundo, hoje e amanhã, turvando o enlace entre cinema e registro jornalístico, ao passo em que joga luz a este obscuro “acordo nacional”.

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