Crítica: Nós

Com uma curta e já substancial carreira no cinema, abarcando prestígio crítico e comercial em diversas funções, Jordan Peele parece querer direcionar suas realizações para um lado ainda mais fantástico do que o visto em Corra! (2017). Antes da estreia do reboot de Além da Imaginação (série exibida originalmente na TV norte-americana entre 1959 e 1964 e que inspirou, a partir de um de seus episódios, a premissa do filme comentado aqui), ao qual foi escalado como produtor, narrador e apresentador, Peele chega aos cinemas com seu novo filme Nós, demonstrando novamente a versatilidade do autor na conjunção entre diferentes temas e proposições a serem tratados em tela.

 

Versando dentro dos sub-gêneros de invasão domiciliar e duplicatas (íntimos do terror), Nós explora, a princípio e como é óbvio para tanto, o temor de si mesmo. Resguardado por assentamentos de memórias e sentimentos, tal receio é voluntariamente ignorado por Addy (Lupita Nyong’o), protagonista da história e matriarca da família composta ainda por seu marido, uma filha e o filho caçula. Seu medo é materializado no tempo presente da trama, após o prólogo que a norteia, quando sósias violentos assaltam a casa de férias da família e passam a persegui-la.

As alegorias visuais e temáticas embasadas pelo discurso crítico e politizado que marcaram o primeiro longa de Peele se fazem presentes em Nós mais como consequências da trama do que como motor dessa. Apesar de ambos os projetos se sustentarem sobre camadas de denúncias sociais e problematizações raciais, o recém-lançado filme é um exercício mais concreto de gênero e que visa, a partir da utilização de diversas matrizes e convenções do terror, subvertidas ou não, complementar a experiência assustadora com o que há de mais aterrorizante na sociedade estadunidense: ela mesma, “atravessando a América” desde sua fundação ao violento, paranoico e ignorante presente.

A fim de suportar tal incursão, a habilidade de composição cinematográfica e o domínio de cena de Jordan Peele retornam em grande forma. Os repetidos movimentos da câmera em sentido panorâmico, dentro de seu eixo horizontal, acabam por ocultar e revelar o perigo dentro e fora do quadro, equilibrando a perspectiva do plano à tensão da cena. Como conceito basilar na estrutura e “mitologia” própria do filme, o reflexo e diferentes representações de si mesmos, tão temidos pelos personagens, são vistos aos montes de diferentes formas por espelhos, contrastes de luzes e sombras, rimas visuais etc., beneficiando-se do trabalho de câmera ao desorientar os próprios personagens em diversas ocasiões. Brincando com o espectador, Nós ainda cria um “frustrante” compasso entre uma crescente trilha sonora e o encerramento de determinados planos em que nada ocorre, reservando sustos à revelia da audiência.

O uso de representações cômicas em cena, tão caro ao diretor e benquisto em sua forma e finalidade pelo público, é ressignificado quando comparado a Corra!: se tal elemento, apresentado desde seu início, era visto nele como um enfrentamento natural e decorrente do racismo vivido pelo protagonista dia a dia, empregando ao filme seu tom satírico, Nós o utiliza a fim de gerar determinados alívios em diferentes momentos da história, extenuando gradativamente a ameaça que cerca seus personagens. Evitando banalizar a violência, entretanto, o descortinamento das ações cometidas pelo grupo de invasores intensifica o principal motivo de seu levante ao final do filme, responsabilizando a própria humanidade como causadora de suas condições e dando a si o papel de criadora de estruturas de subjugação e repressão (é notável, neste caso, as constantes referências que Nós faz, do início ao fim, ao versículo bíblico de Jeremias 11:11, o qual impinge danação e renega salvação a “eles” por parte do “Criador”).

A articulação entre diversos temas, percorrendo questões de cunho social ainda mais abrangentes que o trabalho anterior do diretor, com um exitoso exercício de gênero, que se fundamenta a partir de elementos claros e mais descompromissados, faz de Nós uma narrativa reflexiva no desenrolar de sua forma, o que torna a percepção de qualquer metáfora como o movimento final de um violento golpe em si mesmo.

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