Crítica: Liga da Justiça

Todo o receio que cercava a produção e desenvolvimento do novo projeto da DC/Warner, Liga da Justiça, era mais que válido. A inconsistência apresentada nos filmes anteriores (com exceção de Mulher-Maravilha, cujo sucesso será brevemente comentado abaixo), as frouxas amarras entre personagens e a imersão de todo um novo universo em criação, apresentado em Batman vs. Superman, problemas no set como regravações (muito em conta pela guinada assumida a partir do filme solo da Amazona) que custaram a contratação de Joss Whedon e eventuais problemas de agenda com o restante da equipe, uma iminente saída do ator Ben Affleck de projetos futuros do estúdio e o afastamento de Zack Snyder em período de transição entre as gravações e pós-produção, maio deste ano, por problemas pessoais; tudo foi somado quase que a fim de dar um basta à franquia nos cinemas. Enfim, o pacote completo e na medida exata para uma bomba. O uso do pretérito imperfeito do indicativo ao início deste texto, no entanto, demarca a exata imperfeição e não findamento acerca das previsões catastróficas do longa. Respirem aliviados, DCnautas! Este era o filme que precisávamos – e, por que não, merecíamos?

 

O elemento motriz da trama é simples. Ao fim dos acontecimentos vistos em Batman vs. Superman, as três Caixas Maternas, que há milhares de anos encontravam-se adormecidas e sob posse de amazonas, atlantes e homens, cada, retomam suas forças e exigem por seu detentor Steppenwolf (voz de Ciarán Hinds) que as una e sugue as energias vitais do planeta. Uma espécie de terraformação, como já visto em Homem de Aço, mas sem caráter colonizador como este. Evidenciado de pouco a pouco, os planos do vilão surgem nos caminhos de Bruce Wayne/Batman (Ben Affleck) e Diana Prince/Mulher-Maravilha (Gal Gadot), e, por iniciativa do Homem Morcego, a formação de uma equipe (estando seus membros há tempos no radar de Wayne) dá-se como necessária, formando com Barry Allen/Flash (Ezra Miller), Victor Jones/Ciborgue (Ray Fisher) e Arthur Curry/Aquaman (Jason Momoa) a Liga da Justiça.

A simplicidade da trama principal é um dos acertos iniciais do longa. Dando margem a acontecimentos paralelos envolvendo seus personagens, o mote é capaz de renovar seu fôlego intercalando novas situações ao fio narrativo principal. Mesmo que parte dos eventos de cada herói não encontre uma espécie de “solução” dentro deste filme, tal construção solidifica sua trama base e dá suporte para que cada integrante novo ganhe personalidade e certo background, sem grandes necessidades de longos eventos para os caracterizarem de tal forma. Tendo em conta as produções do ano passado (em especial o patético Esquadrão Suicida), notar uma estrutura bem calcada como a deste novo passo no universo cinematográfico da DC é um alívio.

Ainda no sentido das relações de cada personagem e destes entre si, este elemento, aqui, surge como grande exemplar dentro do subgênero de super-heróis. Mesmo com o claro protagonismo do trio já apresentado e estabelecido em seus filmes anteriores, todos os heróis têm seus (grandes) momentos. Em especial, a dupla e novos integrantes Flash e Ciborgue rendem momentos hilários e tocantes, cada – em especial, de forma respectiva. Ainda que relatos deem a entender que as refilmagens do material tenham tirado boa parte e gravidade da do lado pessoal de Ciborgue – ao tempo em que cedeu mais espaço às piadas de Flash, que ganha ritmo aos poucos –, o carisma do personagem atrai o espectador a compreender e tomar parte de seu sofrimento. Tanto Miller como Fisher exibem com enorme carinho o tratamento para com seus personagens, cada um de sua forma. E sem esquecer de Aquaman, outra grande adição ao grupo e cenário da DC, com suas boas sacadas ao decorrer do longa (e grande participação em algumas das melhores cenas de combate). Um típico trabalho de Jason Momoa.

O restante do elenco encontra-se confortável nos papéis já desempenhados. Com a mudança de tom e inclusão de pequenos lances de humor a cada bloco de diálogos, a desenvoltura de Ben Affleck e Henry Cavill a tais recursos é agradável. Apesar de carrancuda, a figura de Batman, nas ocasiões exploradas pelo filme, engaja-se adequadamente à comicidade proposta. Gal Gadot e sua Mulher-Maravilha já possuíam pelo retrospecto do filme solo a habilidade de conduzir e reagir a uma boa piada. O uso de Flash como alívio cômico é acertado, ganhando fluidez ao decorrer da trama; já Aquaman, é alvo das velhas piadas que cercam a figura desde sua concepção. É necessário notar que a introdução de elementos descontraídos para com filme e público servem mais ao próprio desenvolvimento da trama e envolvimento de seus personagens, não sendo utilizados meramente como artifícios a padronizarem o arco em construção de acordo com o que faz sucesso – mercadológica e criticamente falando. Em nenhuma instância há descaracterização dos integrantes da Liga e o cenário todo há ser empreendido; tudo torna-se, contudo, mais palpável e terreno. Desta forma, tanto filme como público só têm a ganhar.

A interação ágil expõe não somente uma preocupação em unir o grupo como equipe, mas também em avançar a própria narrativa. O objetivo, desde os minutos iniciais, é claro. Antes que haja uma grande ameaça a ser tratada e combatida, a harmonia de time é o que engrenará tanto os eventos deste filme como o próprio futuro da produtora nos cinemas, em próximas investidas de filmes solos e decorrentes novas uniões. Sendo este o cerne da narrativa e indicação de seus desdobramentos, a mudança de tom estabelecida pelos méritos e indicativos obtidos por Mulher-Maravilha torna-se mais que compreensível, mas, principalmente, necessária. Com tom mais aventuresco e sem medo de eventuais flertes com o humor, uma divertida jornada da Liga é um alento aos fãs e que urgia à contramão do suposto tom “sombrio e dramático”, que mais servia como um falso e autoindulgente invólucro a produções medíocres.

Em comparações a Mulher-Maravilha, o qual dirigido por Patty Jenkins ainda carregava forte conteúdo e inspiração visual em trabalhos de Zack Snyder, é notável neste novo projeto um certo desprendimento (e até mesmo amadurecimento) de alguns artifícios que carregavam as obras anteriores do diretor. Sua mão pesada em firulas visuais, que tendiam a causar mais cansaço que maravilhamento, surge de forma contida por boa parte do filme, ganhando em momentos certos uma maior preocupação estilística (e observar a forma de combate de cada membro por esse espectro é outro grande acerto). Renovando até mesmo seu senso espacial no que concerne às cenas de ação, deixando de lado parte da plasticidade antes vista, a coreografia de combate filmada é fluída ao mesmo tempo que sentida pelo espectador. E este frescor em muito, crê-se, é devido à colaboração da dupla Chris Terrio e Joss Whedon com o diretor, que agora já não conta com David S. Goyer (coincidência?).

De qualquer forma, uma maior lapidação no roteiro seria mais que bem-vinda. Algumas soluções buscadas pelo texto tornam-se fáceis demais, apressando o desenvolver da problemática e o andar narrativo. Um dos grandes exemplos é a retomada de consciência de Super-Homem (Henry Cavill); toda a tensão criada em seu segundo ato, às vésperas da ressuscitação, sobre um possível embate entre o grupo e um confuso kryptoniano, é encerrada de maneira até coerente se posta em outras circunstâncias, perdendo, no entanto, grande potencial e estímulo narrativo. Além de que, ora considerado por Batman a maior ameaça ao planeta, o amadurecimento carregado por Wayne em relação ao extraterrestre não é exposto de forma alguma a não ser por um texto piegas, ululado por diversos momentos. “Ele era mais humano do que eu jamais fui”.

Por acovardar-se em ocasiões que exigiriam mais fibra, não é surpreendente o fato do vilão nada mais ser que um arquétipo. Sem tanto embasamento (até mesmo em relação às Caixas Maternas), a tentativa de ameaça a ser por si representada não chega a tomar grandes formas. Inócuo também em combate, nenhuma grande consequência é acarretada por seus atos contra os heróis e humanidade.

A soma de seus acertos, ainda que não desfaça seus equívocos, sublima Liga da Justiça a um novo panteão do que já havia sido criado dentro de seu universo, em questão de qualidade e importância daqui por diante. Louvável ainda por definir ritmo e tom uniforme à sua narrativa, que conserva o fôlego pelos 121 minutos de duração, pode também ser considerado despretensioso se posto lado-a-lado de exemplares anteriores da DCEU. Visto de uma perspectiva que busque outros êxitos e sequências, porém, é o grande acerto do franquia até aqui. Capaz de desapegar de conceitos já obsoletos (talvez seja o adeus definitivo às temáticas da trilogia de Christopher Nolan) e seguir uma tendência que há anos já vigora na indústria (qualquer julgamento quanto a isto seria vil e rasteiro), a integridade de seus personagens encontra um solo fértil para a tão desejada expansão e assentamento que visa competir com a trupe ao lado, mas, principalmente, agradar seus meritosos fãs.

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