Crítica: Jogador Nº 1

Falar sobre Steven Spielberg é falar, inevitavelmente, sobre cultura pop. Esta como um todo, não bastando fórmulas ou um campo específico, percorrendo gerações e influências em cenários artísticos e comerciais. O diretor que demarcou com Tubarão, em 1975, o nascimento do blockbuster, pai da ficção científica fantástica atual (muito disto introduzido em Contatos Imediatos de Terceiro Grau e E.T. – O Extraterrestre) e um dos expoentes quanto ao deflagro dos “cultos” nerd/geek surgidos na década de 80, que hoje exaustam uma boa parcela de filmes e séries voltadas a tal nicho – com maiores preocupações estéticas e referenciais do que necessariamente conteúdo –, retoma à tônica aventureira e fantasiosa, abraçando o legado deixado pelo próprio artista, neste Jogador Nº 1.

 

Wade Watts (Tye Sheridan), jovem e desiludido morador de um subúrbio de Columbus no ano de 2045, deixa de lado sua vazia realidade ao adentrar diariamente no simulacro OASIS, uma plataforma de realidade virtual gaming, integrada por grande parte da população mundial. Um dos criadores deste serviço, James Halliday (Mark Rylance), ao seu falecimento em 2040, esconde três chaves por toda a extensão deste universo, as quais garantirão total controle da plataforma e de sua fortuna pessoal a seu desbravador. Em meio a esta caçada, Parzival (avatar de Wade no mundo virtual) se junta a seu grupo de amigos a fim de encontrar o tesouro e deter os avanços da megacorporação IOI (Innovative Online Industries), capitaneada pelo insano Nolan Sorrento (Ben Mendelsohn).

A simplicidade da trama é deixada de lado pela imersão proposta já na narração inicial do protagonista. Assinado por Zak Penn e Ernest Cline (este último autor do livro em que a obra se baseia), o roteiro mais preocupa-se em descrever as maravilhas possíveis e alcançadas no OASIS do que na degradação do mundo exterior (determinando, acertadamente, sua condição atual em apenas uma frase), e logo somos apresentados à rotina do personagem, descendo por enfileiradas e precárias habitações até chegar ao local onde inicia-se a jogatina. Esta sequência também define o panorama da integração tecnológica à população, numa ágil movimentação de câmera, que percorre janelas e exibe outros players (ou simples consumidores); apesar da situação do local e de seus habitantes, a interação com a tecnologia passa de um mero consumo de serviço a uma atividade regular, quase que necessária para manutenção fisiopsicológica de seus usuários.

O embarque nesta jornada é imediato. Pelos olhos de Wade/Parzival, nos encantamos com todo o universo construído, lotado de referências que vão além dos anos 80. Saltam aos olhos personagens, aparatos e demais elementos próprios já conhecidos pelo espectador. O ritmo imposto pela montagem inicialmente mais maravilha do que confunde. Catam-se referências em cada canto da tela, sem impedir a progressão narrativa principal, no entanto. Esta é bem ditada e desenrolada, apresentando os parceiros do protagonista (Aech e Art3mis, principalmente) e o comportamento de cada diante de tantas possibilidades.

Ao passo em que a perseguição virtual a Parzival transpõe-se ao mundo real, o longa dita um novo ritmo. Apesar da falha em não extenuar as consequências de forma intensa e verossímil, a cautela estabelecida, por tratar-se de perigos tangíveis, passa ao público maior sensação de imediatismo e preocupação. É também entre essa transição que somos (além do próprio Parzival) apresentados aos personagens por detrás dos avatares in gaming. Ainda que as motivações destes sejam superficiais – sem outro desenrolar que não seja a favor do andamento da trama em detrimento de maior aprofundamento – todos são, além de funcionais, carismáticos.

A ação em tela, ditada pelos frenéticos acontecimentos, passa a ficar exaustiva e repetitiva em seu terceiro ato, mesmo com todos os malabarismos técnicos que a suportam por boa parte do filme – além de algumas resoluções narrativas simplórias. Porém, é necessário atentar ao fato dessa exacerbação ocorrer de forma gradativa, como se fosse, talvez, uma própria medida a evidenciar o esgotamento dos personagens em meio aos percalços.

O longa ainda revela sensíveis descobertas no que diz respeito ao criador do OASIS, contando com frustrações pessoais em meio a más decisões profissionais, algo também espelhado no protagonista: ambos preencheram o vazio e inoperância de suas vidas com o que consumiam, servindo de inspiração e reflexo a milhares de outras pessoas. São em pequenos pontos como este, decorridos no mundo real, que o coração de Spielberg engrandece, passando também a justificar várias das referências postas em tela (o que exibia temor por parte do público pela possibilidade de aterem-se somente à gratuidade) e que sustentam seu desenvolvimento.

O escopo de Jogador Nº 1 é tanto, ainda que certeiro e bem direcionado, que pode ser visto por muitos como pretensioso e vazio. É escapismo puro, sem tentativas de julgamento à la “isso é tão Black Mirror” (mesmo que, obviamente, haja analogias mais que simbólicas do tratamento contemporâneo à tecnologia). Impressionante é o fato do desde sempre prolífico diretor, dois meses após a estreia de The Post, reunir boa parcela do que fora definido a partir do próprio há mais de trinta anos em 140 minutos de projeção, pouquíssima vacilante em seu decorrer, e injetar fôlego, boa dose de carisma, inovações e originalidade ao “cinema pipoca”. É a mais pura forma de Spielberg por trás das câmeras, que perpassa à tela e atinge em cheio novos e saudosos espectadores.

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