Crítica: Deadpool 2

Resistir à tentação da reciclagem do que deu certo (ou, leia-se: dinheiro) não é tarefa fácil para a indústria cinematográfica. Ancorado no sarcasmo e acidez de seu personagem-título, Deadpool 2, agora encorpado com uma produção de centenas de milhões de dólares, prova-se uma eficiente continuação, extraindo o melhor de seu antecessor mas sem deixar de suprir suas carências.

 

 

Se o longa anterior chegou a apostar parte de sua campanha como um romance (debochadamente, é claro), esta nova produção martela diversas vezes no drama familiar, cedendo olhar ao controle de anseios e deslocamento social. Sem deixar de lado o pique de gozação, a trama ganha forma na missão do anti-herói de proteger o jovem mutante Russel Collins (Julian Dennison) das investidas homicidas de Cable (Josh Brolin). Para tal, o Mercenário Tagarela coopta membros, com poderes ou não, para o supergrupo de desajustados X-Force.

Há uma clara mudança do primeiro ao segundo filme em termos de narrativa, perceptível em poucos instantes. O longa de 2016 centrava a ordem de seus acontecimentos de forma não-linear, tendo Deadpool como narrador e personagem – papéis imbricados do início ao fim. Ainda que um recurso competentemente trabalhado, Deadpool 2 acerta ao traçar sua história de A ao B sem grandes rodopios narrativos. Ainda que haja em determinados momentos a interferência do personagem, ditando os rumos da trama, o que predomina é a valorização e ordem dos acontecimentos por si sós.

Para tal, a variação entre filmes também é exposta em seu tom. São vários os momentos em que o filme lança mão de recursos dramáticos, tanto visuais (travelling de câmera, alternação entre luz e sombra) como do próprio texto (escrito por Rhett Reese, Paul Wernick e o próprio Ryan Reynolds) a fim de incutir a carga pessoal de cada personagem para com o espectador e a desenvolvendo em arcos dramáticos próprios, mas interligados pela trama principal. Tal desenrolar não chega a ser comovente ou profundo (o que prejudica, principalmente, o mutante mirim e o viajante temporal), mas sustenta a criação de empatia pelos personagens e a urgência imposta pelo ritmo.

Valendo-se dos eventos explorados no primeiro longa, a ambientação e ações nonsense por parte do mercenário são melhor apreendidas pela “licença poética” do roteiro, em que nota-se maior desenvoltura de Reynolds como intérprete e co-roteirista. Como antagonista e novidade no elenco, o versátil Brolin age conforme o texto, sendo imponente sempre e carismático quando necessário. O jovem Julian Dennison arca com a maior responsabilidade dramática, recorrendo a curtas e longas transições emocionais, estas nem sempre bem expressas por si. É o contraponto das atuações principais, mas beneficia-se pelas circunstâncias da trama.

Deslocado em algumas ocasiões, mas sempre presente, o chamativo humor tórrido do protagonista apresenta-se mais acanhado que o esperado, no entanto. Ainda que tenha se provado como maior mérito do primeiro filme, neste, com a maior liberdade criativa refletida na equipe principal e no orçamento, a necessidade de contrabalançar tantos novos elementos pode gerar reações adversas. Deadpool 2 ainda é provocativo, consigo mesmo, com a indústria de quadrinhos e cinema e para com o público. A partir de certo ponto, no entanto, suas provocações tornam-se repetitivas, condicionando seu prosseguimento mais como fáceis recursos narrativos do que elementos sintomáticos das situações.

Paradoxalmente, o maior investimento por parte do estúdio no projeto pareceu limitar algumas das ousadias previstas desde o primeiro filme, tornando-o mais convencional junto ao padrão do subgênero. David Leitch, portanto, assume de forma esperada eficiente o posto de diretor da sequência. O veterano dublê e coreógrafo de ação comanda com clareza e dinamicidade as cenas que são de sua especialidade. A plasticidade dos efeitos especiais em conjunto com a percepção de espaço pela câmera, dita a organizada montagem, se valendo ora de cortes curtos, ora de planos em que o movimento decorre com suavidade.

Tratando-se de uma inevitável sequência, Deadpool 2 dosa de maneira oportuna seus artifícios já apresentados há dois anos com a readequação imposta neste novo capítulo. Amplia suas escalas ao padrão cinematográfico vigente na indústria, ao passo em que retrai seus arroubos cômicos, sem perder a identidade e afeição conquistada pelo público, contudo. Basicamente, tudo do primeiro longa está lá, mas em diferentes proporções: as inusitadas aparições, o comentário metalinguístico, os violentos embates e, como maior característica, seu tom irônico de autoconsciência. É uma investida muito mais complementar que repetitiva do filme anterior, com sábias mudanças quanto abordagem mas igualmente imprescindíveis entre os dois.

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