Crítica: Creep 2

Sem tomar grande espaço no campo da divulgação, em 2015 o longa independente Creep (direção de Patrick Brice) chegou ao catálogo via streaming da Netflix de forma tímida, sem grande impacto no seu lançamento anterior nas telonas ou em participação de premiações. Com o passar do tempo e o desgaste natural do subgênero found-footage, o longa causou alívio e espanto na mesma intensidade aos espectadores e fãs do horror, ao tempo que ganhava culto ao seu redor: primeiramente, pelo fôlego extra ofertado pela produção com as renovações (e, até mesmo, subversões) propostas no campo prático, expandindo o horizonte quanto a escassez temática do “câmera na mão”; já a segunda reação, fora provocada, propriamente, pela carga e crescente tensão ao decorrer da obra. Indo muito além de jumpscares e demais convenções tolas, a produção assentou terreno para novas ideias e a retomada do outrora revolucionário subgênero – que ganha em sua continuação Creep 2 talvez o melhor exemplar dessa nova safra.

 

O mote desse lançamento é tão simples quanto de seu antecessor: encarando como oportunidade de catapultar seu canal no YouTube, a jovem Sara (Desiree Akhavan) viaja algumas centenas de quilômetros para atender ao chamado anônimo de mais um desajustado (temática registrada pela garota em seus trabalhos) em busca de voz. Logo em seu primeiro contato, o anônimo em questão revela-se como Aaron (interpretado por Mark Duplass), um psicopata/serial killer enfrentando “crise de meia-idade” (em suas próprias palavras). Partindo da “descoberta”, o público do primeiro filme já sabe o que encontrará adiante… Bem, não exatamente. O retorno de Brice e Duplass (também como roteirista) visa, novamente, subverter as regras já cimentadas e de fácil apelo ao público.

É necessário atentar ao fato dessa desconstrução ocorrer também sobre a própria forma e estrutura as quais a investida original havia estabelecido. De tal forma, a ordem de acontecimentos e condicionamento destas, assim como de seus personagens, passam por esta nova requalificação, o que envereda o filme bem além das expectativas do público. O fio condutor do longa anterior era traçado sobre quem era Josef (a mudança de nome não é um equívoco, aliás); já neste novo projeto, a trama discorre sobre a expectativa do que o assassino fará. Diferentes formas, mesma tensão.

O andar da narrativa é muito bem controlado pelo seu ritmo. Ao passo de cada nova revelação sobre Aaron, fornecida pelo próprio, várias contradições entornam seu passado, crescimento e atos. Todos os fragmentos e possíveis pistas que possam delinear a persona e dar algum tipo de previsibilidade ao seu comportamento, corrompem-se entre mentiras e meras gabações. Tudo isso desenrola-se por meio de diálogos entre a dupla, iniciados como conversas triviais e não necessariamente por possíveis investigações da youtuber – o que estende a morbidade da atmosfera. Assim como o público, Sara vê o desenrolar da trama não como agente, mas no papel de espectadora (e relatora dos acontecimentos).

A inversão do jogo entre predador e presa impulsiona o longa por grande parte de sua duração. O incauto cinegrafista do primeiro filme cede lugar à destemida entrevistadora deste. Nesse novo desafio, a sagacidade expressa por ambos os atores consolida e amarra os joguetes da trama. Os deboches feitos pela produção sobre esse posicionamento de peças arquetípicas, tais quais seus elementos, evidenciam a “necessidade” e o mérito da obra tomar a si o conhecimento e emprego de forma prática e original a estrutura que circunda a esmagadora maioria de seus semelhantes (e a forma como o famigerado e já citado jumpscare assume certo posto a partir de dado momento é um consciente e ligeiro comentário sobre seu próprio mau uso em outras produções do gênero). Tobe Hooper e Sam Raimi que o digam com as sequências de suas maiores sagas (O Massacre da Serra Elétrica e A Morte do Demônio, respectivamente).

Até o segundo ato da projeção, essa investida funciona; já em em seu último terço, a necessidade de uma guinada, tomada pela protagonista, é introduzida, sem o êxito esperado, contudo. O mal de apostar certos micro-desfechos em estúpidas decisões de personagens ainda é sentido na continuação. Cada ponta solta deixada por alguma má ideia cria continuidade ao andamento da narrativa. Uso desnecessário, vez que o tom disforme (propositalmente) da narrativa permite múltiplos encadeamentos ao longo de seus acontecimentos. Este sequenciamento ainda priva a resolução total da trama, deixando pendências que seriam tranquilamente resolvidas caso o tratamento de seu clímax fosse mais recompensador.

Impondo a si mesmo o fardo de fertilizar o campo a produções vindouras em mesmo estilo, o saldo de Creep 2 acaba sendo mais que satisfatório; é também de extrema importância a forma proposta por sua narrativa ao empregar uma dúzia de elementos corroídos pelos híbridos de horror/blockbuster. Mais ousado e vertical que alguns bons exemplos de conscientes investidas no gênero recentemente (como A Bruxa, Corrente do Mal, Corra!), o longa de Patrick Brice reafirma os bons valores do macabro junto a abordagem minimalista mas não menos que pretensiosa, rindo ao mesmo tempo que quase sufocado por produções maiores e de aproveitamento mínimo. Em exibição no Brasil pela Netflix, a partir deste sábado (23).

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