Crítica: A Mula

Fora do olhar das câmeras desde 2012, quando protagonizou Curvas da Vida, de Robert Lorenz, o sempre ativo Clint Eastwood reassume o papel de intérprete em frente a um filme de sua autoria – sendo Gran Torino, de 2008, sua última obra trabalhada em diferentes funções que não as de diretor-produtor. Tal retorno proposto em A Mula ganha relevância, principalmente, ao expor, diferentemente do esperado epitáfio redentor a essa altura de sua carreira, um módico reajuste de contas entre autor e público, carregado muito em conta pelo teor ufanista presente em parte de seus últimos filmes (a exemplos de Sniper Americano e 15h17Trem Para Paris).

Clint Eastwood confronta neste A Mula uma parcela de mecanismos previamente utilizados em seus filmes, sendo esses desde valores puramente cinematográficos a visões xenofóbicas e socialmente simplistas, imbricados, ora e outra, na realização final de cada filme. Tal enfrentamento, no entanto, não chega a ser uma rejeição total de qualquer caráter obtida por uma tola e apelativa expiação, mas sim pela proposta de um diálogo simples e sincero com o espectador. Tomando como base seu já citado filme de 2008, no qual Eastwood deu vida ao carrancudo e canalha Walt Kowalski, o conteúdo de via moral pavimentava a jornada do (anti-)herói rumo a uma espécie de salvação espiritual, conquistada pelas boas ações em prol de outrem em seus últimos dias de vida, resguardando, assim, sua integridade ao além da vida. No novo longa, o rumo tomado por seu personagem Earl trata de encarar a falta de escrúpulos dos próprios atos como consequências diretas das escolhas feitas por si durante toda sua existência, substituindo a bússola moral por um compasso prático e negando a possibilidade de um olhar piedoso e que pudesse ser amparado em qualquer ingenuidade ou tentativa de reparo do protagonista.

 

A locomoção de um ponto a outro, como bem simbolizado na configuração de road movie que A Mula adota, trata a determinação do personagem na busca de uma ação conciliadora como um ato dúbio. Falho como é, uma possível redenção não é vislumbrada, nem mesmo ansiada, por Earl nos longínquos horizontes que serpenteiam as estradas percorridas de Illinois ao México. Este é um personagem que carrega o fardo do tempo em sua frágil postura, acanhado entre os ombros. O tempo que o resta não é o que há de ser recuperado, mas vivido no limiar de seus compromissos. Não há escolha a ser feita: o que é tomado para si é somente a realizável articulação entre o que sempre priorizou (trabalho) ante o preterido (família).

Para tanto, o tratamento que Eastwood dá a cada relação, seja ela pessoal ou profissional, entre Earl e qualquer outro personagem tece vagarosamente a fibra que envolve seu personagem. Apesar de esbarrar durante determinados momentos em sentimentalismos baratos, é evidente que o objetivo primário aqui almeja a construção e exposição íntima do retrato do protagonista. Tamanha é a proeza que, não necessário alcançar os desdobramentos finais do filme, é possível que o espectador antecipe alguns passos a serem dados pelo personagem durante a trama, sendo costurada, portanto, a confidência entre Earl e o público de forma sábia pelo diretor – inferido nisso a escolha de si mesmo para viver o quase nonagenário transportador de drogas; outro que não Eastwood provavelmente não carregaria o andar da narrativa pelas curtas transições de sua interpretação, esboçadas pelo temperamento sóbrio e plácido que sempre foi marca do Eastwood-ator.

O diretor ainda dosa habilmente, a partir da observação de sua figura no filme, algumas situações cômicas que, embora pouco encaminhem a trama, tornam seu personagem ainda mais palpável ao público em afeição e à construção de sua personalidade. Algumas frases e atitudes vindas de Earl só seriam realmente possíveis de credibilidade do espectador se expressas pela figura de Clint como ator. As longas encaradas de tempos atrás permanecem, dando lugar somente o rápido manejo de armas às ríspidas falas que desconsertam a audiência e o universo do filme.

Quando focalizadas outras relações além do ponto de vista de Earl, A Mula enfrenta alguns deslizes que quebram parte do seu encanto: se mesmo a partir do protagonista algumas soluções simplistas e de pouco desenvolvimento dramático (principalmente no que concerne seu núcleo familiar) engendram enfadonhamente o progresso da trama, o olhar paralelo sobre as ações do personagem principal concebido pelo agente do DEA Colin Bates (Bradley Cooper) é insosso. Com pouco a acrescentar no desenvolvimento narrativo, mesmo que reforce para além da imagem de Eastwood as complicadas relações entre dever e moralidade, suas passagens exibem o cansativo trabalho burocrático dos perseguidores, trabalhado de pouco a pouco para a maior agilidade de resoluções na calculada intensificação do ato final da história. A convergência de toda a construção empreendida pela maior parte do filme ainda tromba nas carregadas composições de certas figuras do cartel mexicano, pintando súbitas humanização e vilania em contrassenso à parcimoniosa elaboração de seu personagem central.

A Mula exibe o que há de melhor em Clint Eastwood, ao passo em que remedia uma parcela do que há de julgável em seus últimos trabalhos. Algumas considerações a respeito de sua visão ultranacionalista são facilmente lançadas por terra, uma vez que estereótipos funcionais (com exceção, claro, de seu protagonista) habitam os dois lados do tabuleiro – jogo, por si só, complexo de ser analisado friamente e que ganha pelo corpo e mente de Eastwood um afetuoso adeus carregado em sua própria imagem.

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