Crítica: A Morte Te Dá Parabéns 2

A Morte Te Dá Parabéns 2 marca o retorno da mesmíssima equipe, diante e detrás das câmeras, responsável pelo sucesso do filme original de 2017. Se no primeiro o exercício de sua narrativa se dava de forma um tanto burocrática – conciliando a mecânica da repetição do mesmo dia causada pelas incessantes mortes de sua protagonista às referências claras à comédia Feitiço do Tempo (1993) e à franquia de suspense/terror Pânico (2006 – 2011) – este novo projeto é baseado, novamente, pela estrutura de sua trama cíclica e em novas piscadelas a filmes clássicos, mas contando com maior segurança quanto a tais investidas e novos desdobramentos dramáticos.

O reencontro dos jovens personagens ocorre exatamente um dia após os acontecimentos vistos no longa anterior. Mesclando elementos (pseudo-)científicos aos motivos da perseguição mortal, A Morte Te Dá Parabéns 2 ingressa sua história em uma nova linha temporal, sendo esta causada por um pulso de energia de um reator quântico presente no campus universitário (a mesma Bayfield do primeiro filme). Agora, a protagonista Tree (Jessica Rothe) precisa encerrar seu ciclo de incontáveis mortes mais uma vez e tomar uma difícil decisão quanto ao seu futuro, amparado em acontecimentos ocorridos desde seu predecessor.

 

Ecoando diretamente De Volta Para o Futuro 2 (1989) – verbalizado pelos personagens em determinados pontos da trama e até pontuado em trechos da trilha sonora –, esta nova sequência, assim como sua inspiração, se serve dos elementos já apresentados por si e diversos outros filmes para subverter algumas noções e expectativas acerca de sua estrutura como filme solo e como pertencente a toda uma categoria já conhecida pelo público e incansavelmente reaproveitada pela indústria. A ligação com o filme de 2017 é coerente do ponto de vista dramático, constatado até mesmo por sua personagem principal, em função de superações e crescimentos pessoais, bem engendrado no novo roteiro e dando espaço a novas explorações e antigas conexões.

Em seus dois primeiros atos A Morte Te Dá Parabéns 2 trabalha com louvável coragem a carga pessoal de sua protagonista em meio ao novo desenrolar temporal apresentado. Embora a narrativa se valha de guinadas semelhantes às do primeiro filme, o roteiro é perspicaz o suficiente para de início mudar aqui e ali a função dos já conhecidos personagens, e brincando a partir de tal fato com o arquétipo consagrado de cada figura. Esta incisão vale também para a expansão da “mitologia” sobre o campus, apresentando novos rostos com importantes papéis; até mesmo personagens antes secundários ganham maior relevância – tendo como principal exemplo o jovem Ryan (Phi Vu). Tal recurso torna a ligação entre os dois filmes mais palpável que meros resgates citados, além de alçar com maior eficácia o suspense em torno do ambiente e de potenciais suspeitos.

A jornada pessoal de Tree é concisa do início ao fim, cedendo tela às transições emocionais da jovem ante o fardo da escolha de um futuro ligado ao reconfortante passado ou da superação de suas perdas e assunção de responsabilidade mirando um novo caminho. Atravessando o filme, este fio dramático é sustentado pela nova incursão proposta pelo diretor e roteirista Christopher Landon em maiores liberdades poéticas para o desenvolvimento narrativo, chegando a desprezar em dado momento, de forma consciente pelos personagens, a suposta bagagem científica por trás dos acontecimentos agora vistos e a teorização cósmica presente no primeiro. Ao intensificar as relações pessoais da protagonista com o acelerado desfecho, A Morte Te Dá Parabéns 2 acaba pesando a mão em inúmeras soluções convenientes em seu roteiro a fim de transitar pontos específicos da trama, deixando de lado a boa resolução adotada na primeira hora do filme e reforçando clichês até então desmantelados. Inclusive personagens com boas apresentações e desenvolvimento entram no atropelamento narrativo denunciado pela montagem do filme, atrelando inúmeras sucessões narrativas em curtíssimos períodos de tempo.

Ainda que essas soluções esvaziem um tanto da força encenada em seu início, A Morte Te Dá Parabéns 2 demonstra suficiente vigor – e vontade, de acordo com seu término – para tornar-se uma divertida e duradoura franquia, à espera de novas sequências, com ânimo para contar histórias e, principalmente, na forma como as faz.

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