Crítica: A Favorita

Com um início de carreira de rápida ascensão, o diretor grego Yorgos Lanthimos é figura marcada nas principais premiações da indústria cinematográfica nesses últimos dez anos. Partindo de Dente Canino (2009), indicado ao prêmio Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010, o diretor conquistou de vez com O Lagosta (2016) o apreço de público e crítica, sendo galardoado em Cannes com o Prêmio do Júri e marcando presença, novamente, na premiação da Academia daquele ano – desta vez na categoria de Melhor Roteiro Original. Se a independência estilística que caracterizou suas obras iniciais foi o principal aspecto de ligação com seus adoradores (dentro e fora do nicho especializado), julga-se que tal fator também tenha sido o catalisador para seus detratores e eventuais críticas atribuídas a seus filmes.

A partir de O Assassinato do Cervo Sagrado (2017), sua assinatura – entende-se essa como o deslocamento de suas personagens ante situações atípicas, em meios determinados pela frieza e nudez de sentimentos, explicitados pela conveniente articulação entre roteiro e atuação ao destacar atitudes em contrassenso à normalidade – rende espaço não somente em premiações mas também nas principais (e acaloradas) discussões entre entusiastas, para o bem ou para o mal, de filme e diretor, do cinema. De acusações de enrijecimento estético a calculismo cínico, o diretor adquire involuntária e pateticamente maior responsabilidade a cada novo filme produzido, a fim de abrandar o ego de defensores e detratores. A obra da vez, A Favorita, trata de sintetizar (representando certo amadurecimento artístico) boa parte de suas principais ferramentas, utilizando-as de forma funcional e lógica dentro do proposto – apesar do exagero e até desconforto não intencional de algumas situações delineadas.

 

Na corte britânica do século XVIII, a Rainha Anne (Olivia Colman) vê-se cercada por diferentes paixões no que transcorre ao fundo da trama por todo o filme: o impasse da extensão de uma guerra com a França ou encerramento diplomático de tal conflito. Suscetível e de difícil temperamento, a Rainha é manipulada, arbitrariamente ou não, pela Duquesa de Marlborough, Sarah (Rachel Weisz), tendo essa interesses próprios não somente na prorrogação do entrave bélico (seu marido é um dos comandantes do exército britânico) como também na manutenção de seu controle sobre a soberana, a fim de manter a honrada ocupação que possui dentro da nobreza. Surge à ribalta, para intermediação e acirramento entre os jogos de poder, Abigail (Emma Stone), prima de Sarah, disposta a recuperar o título de baronesa que antes possuíra.

A representação inicial de Abigail é típica dentro do universo cinematográfico e representativo de servos, nobres e reis: embora surja determinada de antemão, a jovem inicia seus trabalhos de ascensão social diretamente da lama (em termos literais); esfomeada, implora por um lugar no castelo, mesmo que este seja, inicialmente, o de limpar chão. A afeição a tal personagem é natural, mas é na subversão de suas atitudes ao encontro de intenções que elimina o grau superficial e de fácil identificação para com o espectador no primeiro ato da projeção.

Para tal indicação, o que se assume como principal elemento de poder e conquista é a dinâmica entre as três personagens centrais, e não mais suas ambições pessoais. Lanthimos é hábil quanto à construção deste dinamismo, presenteando suas personagens com falas rápidas, diálogos atravessados e, no que concerne como parte de seus joguetes, como já citado, o comportamento estranho de tais figuras, passando da ingenuidade a arroubos histriônicos de acordo com o desenrolar de cada situação – de ardilosas jogadas sensuais à frustração de planos encarecidamente orquestrados –, alternando entre a disposição sob luzes e sombras o caráter “vilanesco” e “heroico” de cada personagem.

Acentuado por figuras periféricas, como as de Robert (Nicholas Hoult), jovem parlamentar decidido a encerrar a disputa armada em uma inédita aproximação à Rainha, e Godolphin (James Smith), exato oposto do “liberal” citado, o ambiente se vê marcado pelo comportamento quase pueril tomado por aqueles que circundam Anne. Chantagens, tentativas de envenenamento, relações sexuais: tudo opera em conformidade com a marca do diretor grego, amparado agora pelos roteiristas Deborah Davis e Tony McNamara. O tom debochado que carrega grande parte dos diálogos e ações de suas personagens dilui apropriadamente o peso dramático que as implicações de tais atitudes geram dentro da corte e fora dela. É esta suspensão que imbui ao longa sua roupagem cômica, presente também na realização de seus planos ao evidenciar o desconforto do público e de suas protagonistas (para tanto, o prolongamento do contra-plano logo após o plano revela-se como principal artifício do diretor, mas que, apesar dos bons momentos obtidos, torna-se enfadonho pelo uso em excesso).

É notável também a presença do deslocamento de posição ofertado a todos que giram em torno da Rainha Anne, presentes hierarquicamente e em cena inferiores a ela (evidenciando o último por meio do emprego do constante contra-plongée que se dá do início ao fim, revelando, assim, a real protagonista e também, de certa forma, detentora das chaves de cada aproximação em direção a ela tomada pelos demais, apresentada como um microcosmo de toda movimentação política ao fundo do enredo).

Com base nisso, constata-se que a abordagem sarcástica acima de suas personagens se deve ao fato do uso do humor como elemento de exploração e descoberta sobre tais figuras, tornando-as complexas pelo tom do filme, e não meramente por suas atitudes (dignas de julgamento), ainda que essas proporcionem o que A Favorita mais se aproxima em termos de catarse.

Também presente em rodas de discussão a respeito dos próprios méritos e do caráter artístico e profissional de seu diretor, A Favorita desperta atenção pela ampla presença em festivais e premiações desde o ano passado. Independentemente de conquistas ou indicações, é necessária a atenção à disposição de seu autor ao transpor ideais cinematográficos próprios (dignos de adoração e desprezo em igual proporção) a um roteiro concebido inicialmente à sua revelia, condensando, embora ainda ao pesar a mão, em melhores e mais tragáveis doses o que aplica como fundamento em suas obras. Mais que isso, Yorgos Lanthimos crava de vez sua condição de diretor-autor no terreno mainstream cinematográfico.

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