Corra! é um filme que consegue ser brilhante e confuso ao mesmo tempo

Corra! É um daqueles filmes que se destacam mais pelo hype que realmente pelo público, é o típico filme que vai aparecer em várias listas dos melhores filmes do ano mas que na verdade quase ninguém viu.

 

Eu gostei bastante dos dois primeiros atos do filme. Um jovem negro é convidado pela namorada branca a visitar seus pais em uma cidadezinha afastada de tudo e quando chega lá alguma coisa muito estranha acontece e ele passa a se sentir acuado em uma situação muito pouco confortável.

A premissa aqui é fazer um paralelo entre o racismo que está dentro das pessoas e o medo de não ser aceito ou, pior ainda, de ser rejeitado de maneira brutal pelos pais daquela pessoa que se ama. Só que com um ar de filme de terror.

Eu acho importante ter filmes e séries que falem sobre problemas sociais e comportamentais, filmes sobre homens brancos que salvam o mundo e ficam com a mocinha é o que mais tem no mercado, só dar uma olhada nas últimas maiores bilheterias do cinema. Mas poucos são realmente inteligentes para tratar do assunto e nos fazer pensar nele mais profundamente.

E o diretor estreante Jordan Peele (que já garantiu um contrato de dois anos com a Universal) é um sujeito inteligente. Seu texto equilibra o lance do racismo com a paranóia, e o filme parece ser uma mistura moderna em tom de sátira de Adivinhe Quem Vem para Jantar (Guess Who’s Coming to Dinner, 1967) com O Bebê de Rosemary (Rosemary’s Baby, 1969).

Cinquenta anos depois desses dois clássicos do cinema o assunto racismo e paranóia continuam quentes.

Desde a primeira cena Corra! trabalha a sensação de medo do espectador. Mas você se lembra que eu disse que gostei dos dois primeiros atos? Pois é. O terceiro ato segue por um caminho que esvazia o impacto do filme e o transforma em um episódio ruim de Além da Imaginação.

Corra! começa como um filme que trata o racismo de maneira inteligente e termina como uma ficção científica ruim. Vai do ponto em que acreditamos no que vemos na tela até virar a chave da suspensão da descrença abruptamente. Eu não comprei essa mudança. Me incomodou. Mudou da água para o vinho, e se pelo menos essa mudança fosse para algo melhor, mas não foi.

Mas isso não tira o impacto dos dois primeiros atos, apenas enfraquece o todo. Eu sai do cinema com a sensação de ter assistido a dois filmes diferentes, o primeiro sem final, o segundo com um final bobo.

Mas quem escreveu este texto é um homem branco. Acho que meus amigos afrodescendentes vão ser atingidos mais profundamente, não vão se importar com o final e eu não duvido que depois de assistirem a Corra! eles passem a pensar duas vezes antes de ir conhecer os pais da namorada branca.

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