Batman: Ego – Nerd Rabugento Dicas

Batman: Ego (Batman Ego and the others tales, 2000) é um dos melhores quadrinhos do Batman que aborda toda psiquê conturbada do herói. Se você quer conhecer mais do que se passa na mente do herói mais famoso da DC, precisa conhecer esta grande obra dos quadrinhos!

 

Bruce Wayne tornou-se um homem atormentado desde a morte dos pais. E após o trágico episódio do assassinato ele se tornou o maior herói de Gotham, o Batman, sempre lutando contra o crime, contudo, há uma ideia se propagando na mente dele de que não está fazendo tudo o que poderia com os recursos e intelecto que possui contra a enorme violência que existe na caótica e corrupta Gotham. Fragilizado, refletindo sobre todo o peso da responsabilidade que tem em ser o Cavaleiro das Trevas, o homem morcego não vê mais saída e começa a temer que tenha chegado ao seu limite. Descobrindo que para continuar na caçada contra o crime terá que lutar uma batalha que adiou há tempos, a maior batalha da sua vida: a batalha interior.

Essa é a premissa da HQ lançada originalmente em agosto do ano 2000 pela DC cujo principal artista é Darwyn Cooke, que roteiriza junto com o Paul Grist, e desenha – e que também foi responsável por DC: Nova Fronteira (DC: The New Frontier, 2013-2014) – criando ilustrações únicas com predominâncias das cores preto, cinza, roxo e amarelo, características do herói.

Lançado somente uma vez no Brasil pela editora Mythos em 2003, é uma das grandes histórias que poucos conhecem e que mais pessoas deveriam conhecer, principalmente os admiradores do vigilante de Gotham.

Batman: Ego é um dos tesouros escondidos para muitos da mitologia do morcegão mais querido do mundo que mostra que o que faz um herói é como ele consegue lidar consigo mesmo.

Já pela sua capa, é possível reparar do que se trata a história. De como Batman é tão unido à Gotham. De como esta cidade tão perdida quanto ele necessita de proteção. Um é uma parte do outro. Por isso a capa do Cavaleiro das trevas fundido a cidade é um tiro certeiro nas analogias feitas por Darwyn Cooke que mergulham intimamente nos medos e fraquezas de Bruce Wayne.

Do que se trata essa história e por que você deve ler?

A trama, em síntese, é sobre o confronto de Bruce Wayne com sua persona Batman.

O quadrinho inicia com uma voz narrando os eventos. Uma voz com uma fonte diferente das demais com um balão azul claro, que pode ser entendida como o consciente do herói. Batman questiona-se se deve ou não continuar em sua caçada ao crime refletindo sobre seu legado: “Em momentos como esse… no frio e nas trevas, eu sinto que estou perdendo o rumo, que a cidade a qual me entreguei ameaça me esmagar com o fardo do meu compromisso com ela.”

Ferido, perdendo sangue, persegue implacavelmente um subordinado do Coringa que está com muito medo da fuga do palhaço do crime de Arkham ou da polícia de Gotham descobrir que revelou o esconderijo secreto do maior vilão do morcego e que fugiu com o dinheiro do bando. Bruce tenta dialogar com o bandido e manter tudo sobre controle para prendê-lo, como está acostumado a fazer. Não aceita a derrota, nunca desiste porque nunca foi uma opção e suas falam são representadas por um balão tradicional refletindo a personificação do seu Ego, que dá título a HQ.

A perseguição termina em catástrofe quando o capanga temeroso por sua vida e da sua família pela ira do Coringa, diz que assassinou sua mulher e filha antes que o vilão o fizesse de forma pior. Após a chocante revelação, o capanga já sem esperanças de qualquer salvação faz o mesmo consigo, suicidando-se na frente do Batman, que choca-se, ao perceber que mais uma vez não consegue salvar uma vida. E é aí que a história começa de fato, após essa introdução.

Ao voltar para a Batcaverna, totalmente abalado, Bruce reflete sobre suas ações e o que levou a isso acontecer, e eis que ele toma a decisão mais importante de sua vida: desistir de ser o Batman. Algo que sempre lhe atormenta pelo peso que carrega em suas costas. Pela decisão de ter que abdicar a sua missão por uma possível vida normal, e provavelmente fútil, em uma busca pela felicidade pessoal. E nesse momento, o Batman aparece diante dele e começa a questionar a decisão. Batman é desenhado como uma entidade, bem maior que Bruce e com um aparência intimidadora. Sua fala nos quadrinhos também difere-se dos outros personagens; seus balões são de cor meio amarelada e que aparenta representar o inconsciente, o Id, contudo parece-se mais com a representação do Super ego de Freud, ou com a Sombra de Carl Jung. De qualquer forma, o ser nomeado de Batman surge como a contraparte de Bruce Wayne.

Quando um Batman em forma de entidade (seria alucinação ou dupla personalidade?) surge em frente a um emocionalmente quebrado Bruce é quando se têm os melhores momentos da HQBruce é confrontado com seus maiores medos, falhas, contradições e desejos pelo Ser Batman, que o coloca contra a parede com diálogos como esse: “Bruce Wayne, o humanitário, o pretenso beato e total hipócrita, você professa a santidade da vida humana enquanto professa a santidade da vida humana, enquanto jaz, soterrado sob inúmeras vidas humanas. Como ficam as vidas delas? Elas não passam de execução da sua moralidade covarde? Numa análise final: será que nós não criamos o monstro?”

Momentos em forma de flashback importantes que impactaram a vida do milionário e vigilante de Gotham são relembrados: morte dos pais, da criação do Coringa através do Capuz Vermelho, em uma referência/homenagem a icônica e premiada história de Allan Moore, A piada Mortal (The Killing Joke, 1989), a sua parceria com o garoto prodígio, Robin, a sua culpa de deixar pessoas morrerem e nunca quebrar o seu código de honra de não matar. Batman quer que o Coringa seja morto para que a justiça possa prevalecer em Gotham. Bruce é contra o assassinato. Um conflito entre ambos é estabelecido. Bruce está diante daquele que mais sabe sobre ele mesmo. Daquele que surgiu quando o menino teve medo da morte dos pais. Bruce está diante do que o faz ser o Batman: o medo.

Por que Batman: Ego é uma excelente história?

Antes de Darwyn Cooke escrever e ilustrar esta história fechada, de uma única edição como nenhuma outra história abordou a psiquê do morcego ou brincou completamente com a essência psicológica dele. Com o que há de mais básico: ego. Essa abordagem do Batman, onde Bruce enfrenta seu ego/personalidade não tinha sido feita antes. Outros escritores destruíram o Batman fisicamente e o puseram no limite, mas não de modo emocional e intelectual. Cooke foi o único que escolheu quebrar a figura do homem por trás da entidade morcego de forma tão reflexiva, intelectual e concisa usando muitos elementos abordados no também recomendado e incrível documentário do Batman produzido pelo canal History.

Batman: Ego é uma excelente história não só para os fãs do morcego ou dos quadrinhos da DC, é para qualquer apreciador de boas histórias. É curta, bem escrita e com desenhos únicos que traz uma abordagem diferente e altamente interessante. É uma das poucas histórias onde vemos como o Batman pensa e age e como paradoxalmente a existência dele inspirou os caóticos e psicóticos vilões de Gotham, como o maior exemplo: Coringa, seu eterno arqui inimigo.

O que Batman: Ego tem de ótimo está no debate que traz sobre o que torna o herói mascarado vestido de morcego tão diferente da sua galeria de vilões. Seria Batman um louco? O que difere dele dos seus inimigos? Seria o fato de não matar vilões e bandidos comuns? Se a intenção primordial do Batman é de fazer justiça e não vingança, poderia ele decidir quem vive quem morre? A grandiosidade desta obra está nas questões abordadas e nas perguntas feitas. Para saber a resposta você precisará ler.

Infelizmente, essa obra não é muito comentada e até esquecida diante do panteão de clássicos do morcegão; sendo ofuscadas por histórias como Batman, o cavaleiros das trevas (The Dark Knight Returns, 1986-1987), A Piada Mortal, O longo dia das bruxas (Batman: The Long Halloween, 1996-1997), Ano Um (Batman: Year one, 1987), dentre outras.

Se você gosta de boas histórias com abordagens psicológicas, e não se importa com a falta de ação, Batman: Ego é feita para você. Se tiver a oportunidade de ler, leia, não vai se arrepender e poderá ter o prazer de mergulhar profundamente na mente conturbada de um dos maiores heróis de todos os tempos!

Vamos falar de coisa boa?

O site Nerd Rabugento é independente e não depende de patrocinadores para existir. E toda contribuição que você fizer será muito bem vinda, seja com o valor que for. Com apenas um real você já ajuda e mantêm o site independente.

A independência do conteúdo do Nerd Rabugento depende de você. O seu apoio pode ser tanto mensal quanto feito apenas uma vez, com qualquer valor. Escolha um dos links abaixo e faça o site Nerd Rabugento crescer ainda mais rápido!

QUERO APOIAR ➜     QUERO CONTRIBUIR ➜