American Gods, uma série que poderia dar errado

Demorou para Deuses Americanos (American Gods, 2001) virar série. Tinha gente por aí que dizia que o livro de Neil Gaiman era inadaptável, que qualquer tentativa de levar a história para o cinema ou para a televisão daria com os burros n’água.

 

A HBO mesmo jurava que tinha um roteiro escrito pelo próprio Gaiman, que nunca saiu da gaveta.

Eis que Bryan Fuller, que fez carreira com a boba mas bela Pushing Daisies e com o interessante mas nem tanto Hannibal decidiu comprar os direitos e desenvolver a história como uma série e o canal Starz comprou a ideia.

Ele se juntou a Michael Green, que escreveu Lanterna Verde, Logan, Alien: Covenant e Blade Runner 2049. Ou seja, ele escreve uma porcaria, depois uma coisa boa, depois uma porcaria, depois uma coisa boa, por essa lógica o que vem por aí será uma porcaria…

A mistura Gaiman, Fuller e Green, numa primeira vista, não seria a melhor de todas. Os estilos são bem diferentes e o resultado poderia ter sido um desastre. Mas não foi.

Vamos ao que interessa:

Quem leu o livro costuma dizer que, apesar do livro ser bem interessante, é um tanto estranho, a narrativa chega a confundir em vários momentos e a leitura exige uma boa dose de paciência.

E parece que a série flui melhor que o esperado e não exige toda essa paciência do espectador.

Shadow Moon é um ladrão pé de chinelo que está prestes a sair da prisão depois de três anos. Três horas antes de ser liberado ele descobre que sua esposa e seu melhor amigo morreram num acidente de carro.

No avião a caminho do funeral da esposa ele conhece um cavalheiro que se denomina Wednesday (Quarta Feira para os íntimos), que se interessa por Shadow e o convence a trabalhar para ele e eles partem em uma road trip da melhor qualidade.

Sobre o que é American Gods?

Pensa que deuses só existem porque as pessoas acreditam neles. Essa é a premissa central de Deuses Americanos, uma premissa não tão original assim, uma afirmação religiosa muito antiga, tem até uma história em quadrinhos do Conan, de fevereiro de 1971, que mostra a morte de um deus cinza após a morte dos seus últimos adoradores.

Nesse lance dos deuses perderem seus seguidores e, consequentemente, suas forças, novos deuses surgem, como a Mídia e a Tecnologia, e velhos deuses são esquecidos e deixados de lado.

E é nisso que Wednesday está envolvido, há uma guerra silenciosa entre os novos e os velhos deuses e é para dentro dessa guerra que ele arrasta Shadow Moon.

Wednesday é interpretado por Ian McShane, que de tão bom parece ter nascido para o papel.

Shadow, interpretado por Ricky Whittle, deveria ser o protagonista, mas tende a ser o menor personagem da história, apesar de ser tecnicamente o principal e aquele que representa o espectador.

O problema é que Shadow Moon é tosco. No livro ele é um homem com nada a perder, de poucas palavras, um herói clássico. Mas na série a interpretação de Whittle fez com que eu me incomodasse com ele em diversos momentos.

Lerdão, ele recebe um monte de evidências de que tem alguma coisa muito estranha acontecendo mas teima em fingir que não acredita ou que parece não ter nada a ver com o momento.

A televisão fala com ele? Finge que não entendeu. Ele é quase enforcado por seres paranormais? E daí? A esposa morta reaparece? Normal. Ele vai para uma festa cheia de Jesuses? Ah, é só uma festa moderninha. Mas ainda assim isso não incomoda, ele ser menor deixa os outros personagens maiores, e é nisso que a American Gods é boa.

Laura Moon, a esposa morta, interpretada pela bela Emily Browning é carismática e tem alguns episódios só dela que são sensacionais.

Pablo Schreiber faz o papel de Mad Sweeney, o leprechaun, um espírito travesso que acompanha a esposa morta e é responsável pela existência dela.

Schreiber é um puta ator, que cresce a cada papel que recebe, desde Nick Sobotka em A Escuta (The Wire, 2003) até o Bigode de Orange is The New Black e agora esse sensacional leprechaun. O cara arrebenta.

E todos as outras divindades que aparecem a cada episódio são uma mais interessante que a outra e eu me divertia a procurar cada uma delas no Google depois dos episódios, que delícia se sentir tão interessado por uma série.

Eu, ateu, em alguns momentos fico maravilhado como a série detalha a história de deuses e seres mitológicos que fazem parte da cultura mundial, dá até vontade de acreditar neles.

American Gods é uma das melhores séries de 2017, está disponível no Brasil na Amazon Prime Video e o Nerd Rabugento garante que é boa.

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