Alien: Covenant e a decisão de colocar o Alien em segundo plano

Alien: Covenant é uma daquelas tentativas de lucrar em cima de uma franquia extremamente conhecida do cinema que no final pouco faz para honrar o nome Alien.

 

Alien, o Oitavo Passageiro, é um clássico do cinema. É uma ficção científica sobre uma nave espacial, a Nostromo, cujos tripulantes, ao investigarem sinais de vida em um planeta desconhecido trazem um monstro para dentro da nave e precisam sobreviver a ele.

O filme foi uma união sensacional entre um bom roteirista, Dan O’Bannon, cuja idéia inicial era fazer um filme de humor negro, um bom diretor, Ridley Scott, que ousava na medida certa e impressionava o espectador e uma equipe sensacional, da qual fazia parte o artista gótico H. R. Giger, o pai do assustador visual do xenomorfo que invade a nave e ataca todos os tripulantes da Nostromo tal qual Drácula atacou os tripulantes da Demeter durante sua viagem entre a Transilvânia e a Inglaterra.

O Alien era um monstro assustador. Não bastasse seu visual tenebroso, ainda era um caçador inteligente e incansável, e com um sangue ácido que o deixava ameaçador até depois de morto.

E a ameaça do xenomorfo continuou por outras três continuações: Aliens, o Resgate, um dos melhores filmes de ação no espaço, dirigido por James Cameron em um dos seus melhores momentos, que de tão bom fez a franquia explodir. Logo depois veio Alien 3, a estréia do desconhecido diretor de clipes musicais David Fincher, até se enfraquecer com Alien: A Ressurreição, escrito por Joss Whedon e dirigido por Jean Pierre-Jeunet.

Os produtores não entendiam a maneira charmosa de dirigir de Jeunet e picotaram o filme, que flopou nas bilheterias. A própria carreira de Jeunet, que é mais conhecido pela ótima comédia romântica O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, perdeu espaço no mercado americano.

O quarto filme da franquia não fazia o menor sentido, assim como praticamente tudo o que veio de Alien depois dele.

Houveram algumas tentativas de ganhar dinheiro em cima da mitologia do monstro, como nos dois filmes caça-níqueis de Alien vs Predador.

Mas a sensação que o xenomorfo passou para o público quando surgiu em 1979 continuou tão forte no imaginário coletivo que ele tem lugar garantido como um dos grandes monstros da história do cinema.

Ridley Scott, o diretor de Alien, O Oitavo Passageiro, se tornou um dos maiores diretores de todos os tempos. Blade Runner, de 1982, seu primeiro filme pós Alien, se tornou a referência máxima de filmes futuristas e influencia filmes de ficção científica até hoje.

E o próprio Alien claramente influencia o cinema quase 40 anos depois: Vida (Life, 2017), é mais uma das incontáveis versões sem graça de O Oitavo Passageiro.

Mas vamos voltar ao Ridley Scott. Sua carreira se tornou grandiosa até o começo deste século, quando ele passou a alternar entre fazer filme bons e filmes medíocres.

Foi quando ele teve a genial idéia de fazer Prometheus, uma prequência absolutamente desnecessária de Alien.

Eu fico imaginando a conversa dos criativos de Hollywood:

– “Ow, tenho uma idéia de um filme que se passa no espaço, tem uns caras que são os criadores da raça humana, ai os humanos do futuro decidem atacara essa raça pois eles não gostam dos seus criadores.

– “Pô, genial, mas acho que não vai vender.

– “Hm. E se a gente disser que tá no universo do Alien?

– “Véi, que idéia genial! A gente pode até chamar o Ridley Scott pra dirigir. FECHOU!

E disso saiu Prometheus, um filme sem pé nem cabeça, com uma lista interminável de cenas sem lógica, com os piores astrounautas de todos os tempos, um geólogo que se perde dentro de uma caverna escaneada digitalmente, um biólogo que tenta ser fofinho com uma raça alienígena em um planeta desconhecido, e assim por diante.

Mas no final tem uma pseudo conexão com Alien, a ligação para que o filme se passe no mesmo universo: objetivo alcançado! Acontece que os fãs não engoliram muito essa história.

Não satisfeito, Ridley Scott decide fazer outra prequência. Em Alien: Convenant uma nave espacial cheia de colonizadores recebe uma mensagem estranha e, num comportamento que mostra que os astrounautas da Covenant treinaram na mesma escola dos astrounatas da Prometheus, decidem esquecer os protocolos e desviar do caminho e ver o que tá rolando.

Apesar dos astronautas serem nitidamente estúpidos, Alien: Covenant é um filme melhor que Prometheus.

Não tem as mesmos problemas de lógica, já que enredo é muito mais simples e com menos peripécias, mas falha miseravelmente no mesmo ponto: não é um filme do nosso xenomorfo assustador preferido.

É um filme qualquer, fraco, que poderia apresentar um monstro espacial genérico que não faria a menor diferença. É um filme sobre um robô que quer destruir seus criadores, não sobre um monstro a caçar sua presa incansávelmente pelos cantos escuros de uma nave perdida no espaço.

Os personagens não cativam, a principal Daniels não tem o carisma de uma Ripley, eu não consegui torcer para nenhum deles em nenhum momento, pelo contrário, a tripulação agia de maneira tão idiota que eu tava torcendo para que eles morressem todos rapidamente para acabar com o meu sofrimento.

Alien: Covenant não é um filme ruim como Prometheus é. Não tem as mesma falhas grotescas e até dá pra assistir sem sofrer muito. Tem um visual bonito, mas sustos que é bom não tem, o que sobra são momentos muito óbvios.

No final das contas Covenant é apenas um filme desnecessário. Não me lembro de ninguém pedir para contarem a origem dos Aliens. A gente gostava deles sem origem, um ser ameaçador que surge do nada, não precisava ter mãe (apesar que a mãe em Aliens, o Resgate era bem assustadora).

Pior, o xenormofo é arrancado do papel principal de vilão e passa a ser um bichinho tosco coadjuvante que em alguns momentos lembra mais o Smeagol que qualquer outra coisa.

Se você gosta da mitologia Alien, minha dica é: pule Alien: Covenant e assista aos três primeiros filmes, de preferência na versão estendida, dos diretores, e fique nisso.

Alien: Covenant é apenas mais um caça-níqueis que não faz nenhum bem ao monstro que tanto adoramos. Não precisava.


ADENDO:

Esqueci de colocar no texto: Tem uma cena com uma flauta em Alien: Covenant que me fez refletir sobre a vida:

O quanto vale à pena ver minha vida passar enquanto assisto a um robô ensinar outro a tocar flauta por uns cinco minutos em um planeta distante?

Que tristeza.

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